sexta-feira, 1 de novembro de 2019


A Universidade Brasileira em Debate.[1]




[1] Boletim Informativo do Núcleo de Estudos Foucaultiano Ano 7 – Nº 0004 Novembro/ 2019 – São Raimundo Nonato.



                                           © Agencia Rafão Design, 2019.



Gênesis Naum de Farias – Pesquisador da Universidade Estadual do Piauí – UESPI/ Coordenador do Núcleo de Estudos Foucaultiano.[2]




Introdução as Primeiras Questões.

 

Quando pensamos em Educação no Brasil logo somos transportados à legítima noção de que os saberes docentes refletem os pressupostos filosóficos que norteou todo o pensamento do Educador Paulo Freire rumo a tal almejada transformação da sociedade. Para entendê-la é preciso primeiro saber o que foi feito da formação dos educadores no período Pós–Ditadura Militar; que tipo de profissionais se formou quando a devassa do terror político abriu suas portas e arquivos para uma democracia tardia, quando os interesses já não eram transformar a nação nem consolidar nenhum estado de direito, mas outorgar as infrações e propinas antidemocráticas para afirmar a máxima que nos ponteia como um país colonizado. A ideia é terrível porque cria uma imagem surreal que diz que uma nação que nasce colonizada morre colonizada.

Nas discussões a respeito do futuro da universidade, seja no Brasil ou em países europeus que passam atualmente por grave crise financeira, é comum identificarmos uma estranha sensação no processo que beira a um profundo mal-estar provocado por ações pedagógicas que não se conecta com a realidade criando um intenso isolamento junto à sociedade.[1] O que há por trás dessa infinda falta de sintonia? Certamente temos aqui uma convergência de fatores que levam essa mesma sociedade a se sentir órfão, sendo que um desses fatores é, sem sombra de dúvida, a incapacidade de fazer a pesquisa produzida dialogar com as ansiedades e demandas da modernidade que se divulga nos meios de comunicação, ao tempo em que a marca principal que define hoje a universidade é sua posição, digamos, cômoda e defensiva diante das imposturas elaboradas pelo sistema capitalista que se renova, a cada dia, tecendo seus anelos para definir não só o modelo de mentalidade, mas a forma de consumo, seus derivados e suas equações.

O contexto expõe ainda, uma questão preponderante com relação ao ensino superior formal; é notório que ele tem se propagado numa sistematicidade bem confusa, pois não tem conseguido impor estratégias para organizar os saberes, por meio dos novos currículos, para enfrentar o cenário político que insiste em desqualificar a infraestrutura das universidades, deslocando, por sua vez, o seu papel social, pois a mesma tem se fechado de forma a cumprir objetivos previamente estabelecidos por profissionais do ensino, evidenciando que a atuação proposta para as salas de aula já não consegue dialogar nem impor um modelo de avaliação que reflita de forma prática os sintomas requerentes pela situação da política atual, ao tempo em que a mesma, também não sabe divulgar suas pesquisas nem analisar a concretude do seu isolamento social.

Esse estado de coisas tende apenas a se agravar, ainda mais, quando se percebe quais transformações econômicas vão impactar diretamente a autonomia desses organismos de ensino, já bastante ameaçados. As palavras do renomado sociólogo Laymert Garcia dos Santos evidencia tais fatos: “A principal questão é a conjunção de neoliberalismo com sociedade da informação. Deve ficar bastante claro que essa articulação entre economia e tecnologias da informação não precisava ser fatal, como está ocorrendo. Esse contexto está de certa maneira aposentando a universidade, pois a produção de conhecimento não mais se dá fundamentalmente no âmbito universitário.”.[2]

Outra questão enfática é o visível descaso em formar indivíduos capazes de exercer o pensamento crítico. A sensação de segurança alcançado por meio da estabilidade profissional pode ser uma das causas para explicar algumas dessas questões. Que estabilidade é essa que se propaga como direito adquirido e não se projeta para consolidar os processos de ensino-aprendizagem, quando é visível que não há estabilidade emocional nem segurança para se trabalhar, estudar e vivenciar a universidade perante a tirania doutrinal de profissionais positivistas que na era da Pós-colonialidade demarcam territórios blindados, e atendem ao público com foro privilegiado. As perguntas que ficam no ar se acentuam sem respostas: Profissionais de quase todos os campos do saber se dobraram aos financiamentos das agências de fomento de pesquisa? Estas empresas por sua vez enquadram os saberes e atrelam o domínio pela pesquisa a instituições sem autonomia política para fazer o enfrentamento necessário através da formação crítica nas salas de aula? Os interesses estão sempre na ordem do dia!

Essa recorrência pode ser atribuída tanto à sua organicidade funcional de gestão, como a sua composição conflituosa, onde força e interesses demarcam a ressonância das tensões e expõe uma série de contradições. Nesse sentido, algumas especificidades sobre a crise atual não parecem destituídas de certo interesse do capital em querer desforrar a universidade para revelar para além dos seus inúmeros muros, uma realidade política que ficou velha e desgastada com o tempo, pois talvez outras grandes reflexões ajudem esclarecer os por quês de tanta ineficiência em participar das decisões propostas para o mundo contemporâneo.

Ao ser perguntado, em entrevista a Revista Cult, sobre a atual crise no ensino superior e sua adequação às exigências da acumulação de capital, o pesquisador Ricardo Musse traça um panorama histórico da crise universitária até chegar ao contexto atual: “Nos anos áureos do capitalismo de Estado, as ciências humanas ganharam uma inesperada sobrevida. É verdade que abdicaram, com raras exceções, da indagação acerca dos rumos civilizatórios, pauta obrigatória da tradição filosófica. Porém, com suas tensões e contradições, conseguiram se equilibrar entre a elaboração de técnicas de controle social e a crítica do mundo administrado, a construção de ideologias de identidade nacionais e a desconstrução do nacionalismo, a justificação da concentração do poder no Estado e a demanda por novos direitos sociais, tarefa facilitada pela disputa pela hegemonia cultural travada entre burguesia e proletariado, parceiros rivais do pacto que forjou o Estado do bem-estar social no centro do capitalismo. (...) As modificações nas três culturas, por sua vez, indicam que o conflito decisivo, o combate a ser travado não é mais entre razão cientifica, cultura literária e ciências humanas, mas sim entre esses saberes e a predominante lógica econômica que dita cada vez mais os rumos tanto da sociedade como da universidade.”.[3]

Uma infinidade de debatedores sobre os problemas do ensino superior na contemporaneidade é taxativa em dizer que a educação universitária vai de mal a pior porque os educadores, principalmente os das ciências humanas, já chegam da formação stricto sensu cansados, e, de certa forma, amargurados com o processo, frutos de uma universidade indolente, perseguidora, frustrada, carrasca, intolerante e quase totalmente improducente, onde pesquisa, ensino e extensão não dialogam entre si, e, são na verdade, um delírio utópico de poucos. Alguns, mais comprometidos com outros enleios, se excluem, cotidianamente, por falta de espaço em instâncias colegiadas; outros, por falta de compromisso mesmo, e, nisto a maioria dos estudantes e professores comprometidos ficam desgovernados diante da autoridade doutoral promovida pelo crescente grau de protecionismo do funcionalismo público.

Ante esses lampejos reflexivos, cabem algumas indagações: O que vem ocorrendo, de fato produz democracia ou é massificação de ideias isoladas? É evidente que na chamada sociedade da informação e do conhecimento o não entendimento do papel que esta sociedade exerce sobre os fins do capitalismo contemporâneo mascara o processo, deixando a questão muito fragmentada. O fato é que a universidade, cotidianamente, se mostra desarticulada da política –; não àquela que se faz panfletária, por meio de partidos políticos e suas associações, mas daquela que se mostra entumecida, que cria novas percepções para o que é definido para a realidade como abrangência do social –, e, aos poucos, vai sendo engolida pelo ultraconservadorismo que se alija há muito nos palanques da política nacional e impõe suas decisões, propondo-se na manutenção dos interesses da elite que, grosso modo, precisa de quem a salve da absoluta estupidez.

Enfim, a universidade tem se mostrada lenta para reagir à altura porque a própria formação tem sido colocada de forma fragmentada, e, portanto, lenta para entender aquilo que lhe afirma no campo das intervenções. O pesquisador Moacir Gadotti parte da premissa que toda universidade é essencialmente política, não necessariamente politizada. Isto é, “(...) toda universidade defende certos interesses, que numa sociedade de classes são os interesses da classe economicamente dominante. Em outras palavras: toda universidade é, no plano ideológico, o reflexo da política e da economia de uma sociedade dada.”.[4]

É este entendimento que norteará a investigação que está sendo realizada acerca do papel da universidade frente aos enlaces que determinam o que é democratização ou o que se coloca como massificação, tendo em vista o importante trabalho desenvolvido pela universidade brasileira para gerir desenvolvimento e garantir progresso tecnológico e avanço científico, ao tempo em que é importante celebrar como as primeiras instituições de ensino superior elaboraram modelos de ensino e formação de professores com o fim específico de formar novos educadores preparados dentro do arcabouço social pelas normas pedagógicas e psicológicas para o magistério. 

Democratização ou Escolarização de Massa? 

Desse modo, entende-se o processo histórico, no qual foi fundada a universidade brasileira, como um produto de sujeitos em ação e de sentidos em marcha, sendo uma das formas que tornaram públicos os desafios de se criar e interiorizar escolas nas distâncias dos sertões para se alcançar os mais distantes na luta pela prosperidade social.

No entanto, entende-se também que certas ambivalências situadas na pobreza da população, com a alarmante miséria mantida pelas estruturas sócio-políticas não escolhem marginalizar-se, por isso a universidade, com seus inúmeros pressupostos filosóficos, tem sido produzida principalmente pelos movimentos de singularidades que se estabeleceram pela racionalidade utilizada para elaborar a própria lógica da escolarização no tempo pedagógico.

Diante do exposto, os cientistas da educação são colocados frente a frente com os enredos históricos elaborados no Regime Militar. Afinal, foram vinte e um anos de ditadura e o cenário tardio dessas mudanças, na política, se impõe latente, numa democracia ultrajada pelo sistema político, onde a corrupção aflora em todos os meios, ficando várias perguntas que exigem respostas, a começar pela ideia de uma celebração ufanista vista nas ruas depois das últimas eleições presidenciais. Mas o que se tem a comemorar? O fim da neutralidade política com engajamento social e o surgimento de uma educação servil? Feita esta sucinta provocação, é hora de voltar ao problema inicial: Qual é a função real da universidade?

A resposta a esta questão vem do próprio Moacir Gadotti, que ressalta: “(...) Sua função real, como foi descrita acima, está permeada de ambiguidades: ela também faz parte da sociedade e como tal, no seu seio também se revelam as mesmas contradições existentes na sociedade (em menor proporção na universidade, pois nela já se operou uma ‘depuração’ social e nela, portanto, há maior homogeneidade do que na sociedade). (...) A universidade como um universo preservado, uma ilha de pureza, é uma ilusão. É isso, contudo, que a classe dominante nos quer fazer crer para poder utilizar a escola, a universidade a seu favor. A universidade faz parte do mundo, da sociedade, mesmo que queiram cada vez mais afastá-la, isolá-la, nos seus ‘campi’... A universidade fora da sociedade não existe. Por isso que existe uma unidade entre as lutas pedagógicas e as lutas sociais.”.[5]

A provocação do professor Moacir Gadotti nos remete a outra observação importante, visto que a universidade brasileira vai resistir a todos esses desmandos porque seu significado requer pensá-la como uma instituição formadora de conhecimento. A principal questão é a conjunção imposta pelo neoliberalismo à sociedade da informação. Esse contexto está de certa forma embrutecendo a universidade, ao aposentar as valentes vanguardas do ensino, e, realocá-las para um canto, onde, talvez a cantilena seja somente impulsionar uma retórica ideológica, sem efeito para a produção de novas realidades e de sujeitos capacitados para usar as armas da intervenção da realidade como ferramenta de produção de um conhecimento ordenado em rede. Por outro lado, tem-se verificado e analisado a invasão do capital privado no financiamento de pesquisas educacionais mostrando que a lógica do lucro já se sobressaiu à construção do pensamento crítico.

 O renomado intelectual Laymert Garcia dos Santos, professor da Unicamp e estudioso das múltiplas relações entre sociedade, educação, arte e meio ambiente, em entrevista ao mesmo Dossiê organizado pela Revista Cult para falar sobre o conflito das universidades adverte: “(...) O obstáculo está no outro lado, pois as empresas não têm interesse em desenvolver inovação. Por quê? Porque há o capital financeiro, que permite ganhar mais sem correr riscos. É muito mais interessante especular no mercado financeiro do que correr o risco de fazer inovação. A articulação universidade-empresa no Brasil é muito mais fantasmática do que efetiva, embora do ponto de vista do discurso seja completamente igual ao que acontece fora do país. Não podemos falar que a universidade está dominada pela força do mercado porque o mercado não se interessou por ela. (...) Com relação à permissividade da universidade pública permitir maior democratização sem perder a excelência do ensino acredito que a palavra democratização com relação à universidade está viciada. Afinal, todo mundo é a favor da democratização, mas seria preciso perguntar: Em que termos? Qual o sentido da democratização? Democratização do quê? Da degradação da universidade? Porque no fundo é isso que estão propondo. Eles propõem que vão democratizar, mas piora. É bom isso só porque é democratização? É um acesso demagógico e anacrônico, porque não corresponde às necessidades da sociedade. Há um descompasso enorme em relação ao problema de fato.”.[6]

Os críticos da educação superior bancária, têm mostrado que esse modelo proposto pelo capital, ao desarticular as ciências humanas para fomentar o ensino privado, é indulgente, e, muitas vezes, perverso e intolerante, pois de forma sintomática, amarra os professores-pesquisadores aos desmandos dessas instituições de fomento privado, que autorizam e desautorizam, quando querem, doutrinariamente, os futuros doutores, a se curvarem ao chamado lobby do terceiro setor, ao consumo e aos desejos de vigilância e punição quando sua autoridade institucional não reflete os interesses pretendidos, revelando a incompetência moral e institucional para fazer o trabalho docente gerir desenvolvimento.[7]

Por outro lado, o advento do ensino à distância amplia o entrave que expõe o conflito entre a democratização e a massificação, tornando a educação um elemento interessante para se especular no mercado financeiro, porque esse modelo de educação nem promove inovação tecnológica, nem tão pouco é fator de tantos riscos. Pelo contrário, a injeção de capital público nessa proposta de ensino tem favorecido o capital privado. Nesse contexto, são perceptíveis que em função dos interesses privados, a universidade, ou uma parte dela, está dominada pela reprodutibilidade técnica da força do mercado; neste caso específico, seus professores passam a ser vistos como formadores de mão de obra, que ao serem “capacitados” passam a ocupar um lugar no pensamento terceiro mundista, e, tornam-se reféns da moral do caso, em um tempo, onde a democracia de democrática, só possui o termo.[8]

As pesquisas apontam que as instituições particulares são responsáveis por setenta por cento das vagas oferecidas no ensino superior no Brasil. Essa máxima leva a outras perguntas de pesquisa que ainda podem ser feitas diante desse dado exposto: Qual o papel delas na formação de novos paradigmas profissionais? Qual é o nível de produção de conhecimento? Encontra-se em um mesmo patamar frente às universidades públicas? 

Os Desafios da Universidade Brasileira. 

As observações feitas apontam para outros desafios propostos para a universidade. Um deles, diz respeito ao crescente avanço do mecanismo privado autorizado pelo Estado para gerir a formação no âmbito particular; o outro diz respeito aos contingenciamentos de gastos públicos, utilizado como discurso para outorgar medidas de privatização e terceirização, desencadeando tanto o decadentismo como a censura institucional. Mas a universidade, como espaço de produção e orientação de conhecimento, onde o novo dá espaço para a excelência crítica, se defasou em sua conjuntura, e, em bloco, está se deteriorando do ponto de vista epistemológico e prático. A impressão que se tem é que no fluxo da temporalidade, a mesma perdeu força e, aos poucos, deixou de atuar nas mudanças sociohistóricas. Claro que nas universidades estatais a pesquisa fundamental conta com o apoio de verbas do Estado, pois do contrário, não haveria pesquisa em tempo integral. Porém a questão que se faz urgente diz respeito à forma como ela tem exercido seu papel frente aos dilemas encontrados na realidade, posto que as inúmeras dificuldades financeiras enfrentadas, com a frequente insuficiência em infraestrutura, têm gerado a precarização que tanto já fora denunciado pela comunidade científica.[9]

Ainda questionado sobre os problemas que envolvem as instituições privadas e a falta de democratização do acesso à universidade pública o professor Edgard de Assis Carvalho acrescenta: “A universidade brasileira é um produto tardio sem tradição consolidada. É bom jamais esquecer que a USP foi criada em 1935. Temos que levar também em conta que o golpe de 1964 ceifou a universidade no que ela tinha de mais relevante, tanto nas ciências da cultura quanto nas ciências da natureza. Essa dicotomia é perversa – natureza/cultura – impede até hoje a formação de especialistas policompetentes e de cidadãos imbuídos na necessidade de reformar a cultura, esse vasto acervo multimilenar criado pelo homem. Talvez por isso, as instituições privadas experimentaram um grande crescimento exponencial no período de 1964. Aprovadas sem critérios rígidos de excelência espalharam-se por todo o país, algumas delas já contam com participação majoritária de capital externo. Trata-se de uma distorção de proporções gigantescas. Para superá-las o Estado deve redirecionar sua política e incluir as particulares de qualidade comprovada num tipo de planejamento mais amplo de caráter democrático. Isso porque pensar os saberes no século 21 implica enfrentar as crises da escola, entrelaçar conhecimentos, aprender de outro modo. Precisamos ser contaminados pela lógica da audácia e não deixar que a lógica da convenção impeça a emergência da criatividade em todos os setores da universidade, seja ela estatal, comunitária ou privada.”.[10]

O cenário das políticas educacionais voltadas para o campo da cibernética vai aos poucos oficializando a descrença imposta a tudo e a todos, sempre permeada pela regulação oficial dos organismos estatais. No entanto, é preferível perceber a educação como o elo de transformação da realidade porque assim o desanimo não se disseminará, já que é chegado o tempo do fim das conquistas de direitos pela afirmação e pela regulamentação econômica, numa nação onde a Carta Magna impele liberdade, mas repele cidadania para todos. Nesse estado de coisas, onde ao cidadão comum é negado o direito de usufruir as benesses dos bens simbólicos, o sistema entra em colapso porque não há como saber como está se dando a transformação, entre a cultura e a tecnologia, sem a participação coletiva, e, como se pode utilizar essa democratização como referência para potencializar uma produção inovadora.[11]

Nesse contexto, onde a educação é vista como a mão única para desregulamentar a experiência do atraso, outras questões poderiam ser feitas para elucidar o emaranhado de situações que envolvem a educação formal versus a educação privada e seus educadores: O que dizer de cientistas que trocam a obediência pública pela subserviência privada? O que dizer de professores que trabalham em regime de dedicação exclusiva no setor público, mas desvirtuam a finalidade de suas obrigações e recebem os “favores” do setor privado, quando deveriam produzir conhecimento na esfera pública? Existe a possibilidade de que, mesmo em face de certo descaso, a produção científica nas universidades siga na direção errada, pois a estrutura do sistema como um todo, tenciona para favorecer o ambiente privado, e, neste caso a educação básica ou superior passa a ser um produto da regulação econômica que deverá ser capitalizado.[12] Antes da promulgação da Lei Nº 10.973/95,[13] outra lei já tinha introduzido essa mentalidade de incorporação do público pelo privado. A Lei Bresser escrita pelo economista e cientista político Luiz Carlos Bresser Pereira, já antes, havia introduzido esse modelo de organização social que mantinha não só a estrutura pública a serviço do elemento privado, como também eram utilizadas verbas públicas para a manutenção de tais propósitos econômicos.[14]

O ato conclusivo intui a todos detectar que tem faltado mais fiscalização do poder público, para conter, e, até exigir que certos setores da iniciativa privada deixem de pautar certos desmandos institucionais, deixando de fortalecer os poderes que são criados, paralelamente, entre o público e o privado, ao tempo em que esses setores forjam retóricas de qualidade educacional e institucional sem o ditame lógico do discurso público que autoriza uma dada instituição a pensar a sociedade e buscar transformá-la nos seus diversos tipos de atividades laborais. De quem é a culpa? Quem paga a conta? Quem salvará o povo brasileiro da exploração do capitalismo pelo capitalismo? Como fechar essa conta sem cortar direitos sociais conquistados historicamente? E a mais-valia, como interpreta esse conceito?

A Ditadura Militar destruiu, num primeiro momento, os anseios de muitos dos grandes pensadores da educação brasileira, tais como Florestan Fernandes, Paulo Freire, Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e tantos outros, com o objetivo de produzir seu próprio biótipo de intelectual tecnocrata. No entanto, as ideias elaboradas por esses educadores não foram totalmente esquecidas e continuam fazendo a diferença quando o assunto é escolarização de massa ou escola pública de qualidade. Apesar de políticas públicas como as Cotas sociais e até mesmo o Reuni terem sido pensadas para dar uma cara nova ao que se pode chamar, num primeiro momento, de políticas de interiorização do ensino superior, muito ainda precisa ser feito para alavancar o processo de inclusão. O fato é que essas políticas públicas foram necessárias e até vitais para retroalimentar o espírito público do ensino superior.

O exposto conecta outras preocupações para o mesmo cenário imposto pelo Regime Militar, pois quem manda nos órgãos de fomento para a pesquisa são hoje os mesmos formadores de opinião que nasceram nas docas do referido regime, e, de alguma forma, ainda engendram políticas institucionais frias e sem nenhum alento social para ampliar o desenvolvimento, porque a questão é ter acesso a espaços onde o financiamento econômico fale mais alto podendo referendar toda a impotência de pesquisadores que escrevem apenas o que lhe mandam ou apenas aquilo que está na ordem dos acontecimentos, e, que reproduza a episteme da moda, ou o axioma paradigmático que o jogo dominante determina a todos, sem a responsabilidade política com causas maiores.

O negócio é rentável, porque ainda se usa as credenciais das universidades públicas para receber o aval do financiamento público por meio de projetos que atendem a uma finalidade engrandecedora: formar cartéis acadêmicos e propagar o poder de quem manda a quem se submete a obedecer. Ou seja, empresas privadas são criadas por entre os interesses da universidade com um único objetivo, fraudar ou negligenciar os interesses dos senhores da Ciência Moderna buscando lucratividade em curto prazo.[15] Esses são os efeitos causados pelas inovações nas ditas leis que regulam interesses e ampliam o fosso entre o correto universo das transformações e a legalização dos direitos sociais mais urgentes. Essas brechas deixadas pelos dispositivos legais de controle aperfeiçoam o poder da corrupção. É importante lembrar que a corrupção generaliza aquilo que concorre para desarticular a luta organizada da classe trabalhadora. Esse contexto de crises que passam pela a educação evidencia a enorme paralisia na qual se submete os intelectuais da educação, quando não conseguem mais responder ao chamado para a luta por mais cidadania, justiça e igualdade de oportunidades, e, mais dignidade para todos. A universidade brasileira está em crise[16] porque insiste em manter cartéis econômicos ligados a partidos políticos aparelhados por intelectuais desarticulados dos seus princípios básicos, que não sabem realmente o papel que tem diante dos fatos e dos acontecimentos do cotidiano. O resultado desses acordos políticos “desinteressados” em questões maiores é que teremos num futuro bem próximo uma massa deseducada e pouco esclarecida, que servirá de massa de manobra para atender aos instintos dos donos dos meios de produção, sem se ater aos direitos que tem no amplo papel que exercem na sociedade civil. O que dizer deste universo de coisas se não sabemos nem “podemos” nominá-los nem criticá-los.[17]

Portanto, é justo pensar a universidade brasileira como o local que interage com o global e intervém para mudar os rumos dos acontecimentos. No entanto, não é justo pensá-la apenas como um órgão regulador de saberes e poderes. O Brasil ainda é o que outrora Paulo Freire pensava: um bolsão de miséria que não consegue falar de suas próprias mediações. Isto, porque, não consegue mediar nem suas próprias relações profissionais com respeito, quando é dever de todo cidadão ter acesso aos bens simbólicos para poder gozar do livre pensamento, pretendendo vir a compreender as consequências tardias dos ditames que engendram politicamente suas vidas através do conhecimento.[18]

 REFERÊNCIAS Bibliográficas. 

ARENDT, Hannah. A condição humana. – Rio de Janeiro: Fourense - Universitária, 2001. 

BENTHAM, Jeremy. O Panóptico. – Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2008. 

CALVINO, Italo. As Cidades Invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. 

DOSSIÊ: O conflito das universidades. [et al]. In: Revista Cult – São Paulo: Editora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 44-64. 

FISCHER, Rosa Maria Bueno. Foucault e a Análise do Discurso em Educação. Cadernos de Pesquisa, N.º 114, p.197-223, novembro de 2001. 

FOUCAULT, Michel, As Palavras e as Coisas: Uma arqueologia das ciências humanas / Michel Foucault; tradução Salma Tannus Muchail. – 8ª ed. – São Paulo: Martins Fontes, 1999. – (Coleção tópicos). 

______. Vigiar e Punir: O Nascimento da Prisão. – Petrópolis: RJ: Vozes, 2014. 

______. O Enigma da Revolta – Entrevistas inéditas sobre a Revolução Iraniana. – São Paulo: Nº 01 edições, 2019. 

GADOTTI, Moacir. “A Universidade Brasileira: Funções, Estrutura de Poder, Perspectivas”. In: Educação e Poder: Introdução à Pedagogia do Conflito. – São Paulo: Cortez, 2005. 

GUATTARI, Felix. As três ecologias; tradução Maria Cristina F.Bittencourt. – Campinas. São Paulo: Papirus, 1990. 

LAKATOS, Eva Maria et al. Fundamentos da Metodologia Científica. – São Paulo: Atlas, 2010. 

LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos: Ensaio de antropologia simétrica. – São Paulo: Editora 34, 2013. 

SGUISSARDI, Valdemar. “O Desafio da Educação Superior no Brasil: Quais são as perspectivas”. In: Educação Superior: velhos e novos desafios. [et al]. – São Paulo: Xamã, 2000. 

YOURCENAR, Marguerite. A Obra em Negro. – Rio de Janeiro: Editora Rio Gráfica Ltda, 1986, p. 332.



[1] Ver DOSSIÊ: O conflito das universidades. [et al]. In: Revista Cult – São Paulo: Editora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 44-64. 

[2] SANTOS, Laymert Garcia dos. “A Universidade em Debate”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 46. – (Entrevistado por Ruy Braga; Wilker Sousa). 

[3] MUSSE, Ricardo. “A Universidade de resultados”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 58. 

[4] Nesta reflexão, feita pelo professor Moacir Gadotti no artigo “A Universidade Brasileira: Funções, Estrutura de Poder, Perspectivas”, ele tece uma série de observações pertinentes, mas insiste em defender a universidade, declarando ser fiel à tradição filosófica desta, sem deixar de refletir sobre os impasses recorrentes ao que vem sendo proposto pelo neoliberalismo como imposição a uma nova renovação do espírito do capitalismo. Para se contrapor a está primeira tese, ele anuncia uma antítese: “Entre a servidão da universidade à ordem classista e a rebelião contra essa ordem, abre-se na universidade um espaço de luta, de conflito entre essas tendências. Haverá sempre uma tendência dominante que acompanha a evolução da sociedade: o conflito da universidade reflete o conflito existente na sociedade. Esse conflito será tanto mais agudo quanto mais agudo e intenso for o processo de mudança social.”. Ver Educação e Poder: Introdução à Pedagogia do Conflito. Moacir Gadott, 2005, p. 112. 

[5] Ver Educação e Poder: Introdução à Pedagogia do Conflito. Moacir Gadott, 2005, p. 114 - 115. 

[6] Ver SANTOS, Laymert Garcia dos. “A Universidade em Debate”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 47. – (Entrevistado por Ruy Braga; Wilker Sousa).

 [7] A chamada Lei de Inovação Tecnológica (Lei nº 10.973/95) é um exemplo dessa orientação política baseada em ajustes e contingenciamentos progressivos. “(...) Por meio dessa lei, o Estado brasileiro promoveu a criação e a consolidação de laços entre universidades, institutos tecnológicos e empresas, estimulando a participação de institutos de ciência e tecnologia no processo de inovação empresarial. Além disso, a Lei de Inovações criou todo um arcabouço jurídico capaz de viabilizar a incubação de empresas no espaço público ao estimular a utilização da infraestrutura pública para fins de desenvolvimento tecnológico privado. Em termos globais, essa lei coroou o processo pelo qual o poder da acumulação de capital sob o domínio das finanças e consequente pressão sobre o sistema nacional de produção e difusão de conhecimento científico aprofundaram a alienação das atividades acadêmicas. A instrumentalização do financiamento público da pesquisa científica pelos oligopólios domésticos e o deslocamento do controle estatal para o controle do mercado implicaram alterações significativas no nível, nos objetivos, nas prioridades e no horizonte de tempo dos investimentos relacionados à pesquisa.”. Ver BIANCHI, Alvaro; BRAGA, Ruy. “Um conto de duas universidades”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 54/55. 

[8] “(...) Empresas privadas canalizam seletivamente recursos para essas instituições obtendo como contrapartida direitos sobre os resultados de pesquisa. Fundações semiprivadas recebem esses recursos e os utilizam sem prestar contas de acordo com os critérios de transparência que regem a administração pública. Os correntes escândalos nos quais essas fundações se encontram envolvidas revelam uma pequena parte dos obscuros negócios dos quais tomam parte.”. Ver BIANCHI, Alvaro; BRAGA, Ruy. “Um conto de duas universidades”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 54. 

[9] O professor da PUC/SP, Edgard de Assis Carvalho adverte: “Os focos têm a ver com a hegemonia da fragmentação instalada no dispositivo universitário que hoje domina todos os ramos do saber. Enquanto a universidade não se empenhar na religação da cultura científica e da cultura das humanidades a dita crise não se resolverá. Darcy Ribeiro costumava afirmar que a função da universidade é dominar o conhecimento de seu tempo para poder transmiti-lo às futuras gerações. Por isso, em 2006, Michel Serres fez um apelo às universidades para que reformassem seu ensino em prol de um saber comum que, depois, se subdividiria em três grandes plataformas: a primeira explicaria o programa comum da especialidade, a segunda, a narrativa de todas as ciências, e a terceira, o mosaico das culturas humanas. Não se trata de uma regeneração das especialidades tecnocientíficas, mas de sua inserção em contextos mais amplos. É assim que se formam os verdadeiros intelectuais.”. Ver CARVALHO, Edgard. “A Universidade em Debate”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 50. – (Entrevistado por Ruy Braga; Wilker Sousa). 

[10] Ver CARVALHO, Edgard. “A Universidade em Debate”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 52. – (Entrevistado por Ruy Braga; Wilker Sousa). 

[11] O professor Laymert Garcia dos Santos sintetiza: “Quando se analisa na verdade o que é esse projeto de universidade virtual em São Paulo, nota-se como foi feito de maneira completamente estanque e burocratizada. Inclusive a própria visão da tecnologia é miserável porque a visão é instrumental, mas do pior ponto de vista, em seu nível mais baixo. Ou seja, vamos massificar mais. Usa-se a tecnologia para colocar um número elevado de pessoas nas universidades, para se dizer que há muita gente integrada ao sistema.”.  Ver SANTOS, Laymert Garcia dos. “A Universidade em Debate”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 47. – (Entrevistado por Ruy Braga; Wilker Sousa).              

[12] Ao ser perguntado sobre a avaliação da produção do conhecimento nas instituições privadas de ensino superior o professor Edgard Carvalho foi enfático: “As instituições privadas não podem ser colocadas no mesmo plano. Temos as comunitárias, como as PUC’s, que se destacam no cenário da ciência feita no país, temos os centros universitários que se dedicam apenas ao ensino e assim por diante. Temos também aquelas faculdades isoladas que formam para o imediato. A avaliação da produção é, portanto, assunto delicado. Poder-se-ia perguntar, por exemplo, quem avalia os avaliadores. Todos sabemos que comitês avaliativos, que julgam as particulares quando as estatais, são dominados pela fragmentação, mesmo que haja comitês denominados interdisciplinares. O problema da representação pode ser agregado a isso. As instituições privadas raramente são representadas nesses setores da tecnocracia estatal. Há produção de excelente qualidade por toda parte. É sempre prudente não generalizar de modo abusivo. Há estatais improdutivas, o Estado não é o único balizador do conhecimento científico, o capitalismo neoliberal não é o bode expiatório do descalabro instalado na universidade.”. Ver CARVALHO, Edgard. “A Universidade em Debate”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 50-51. – (Entrevistado por Ruy Braga; Wilker Sousa). 

[13] Lei de Inovação Tecnológica (Lei nº 10.973/95). 

[14] Ver SGUISSARDI, Valdemar. “O Desafio da Educação Superior no Brasil: Quais são as perspectivas”. In: Educação Superior: velhos e novos desafios. [et al]. – São Paulo: Xamã, 2000, p. 09-46. 

[15] O professor Ricardo Musse esclarece: “A tensão é decorrente da imposição de uma lógica mercantil às atividades de ensino e pesquisa. Os critérios de eficácia quantitativa e monetariamente avaliada imperam no mercado. Esses critérios já mostraram mais de uma vez que podem servir para orientar a aquisição de fortunas, mas apresentam graves problemas quando se trata de avaliar bens intangíveis ou inquantificáveis, como o bem-estar, o prazer e a felicidade. São também inapropriados para orientar a produção do conhecimento e as atividades de pesquisa e ensino associadas a essa produção. (...) Empresas privadas canalizam seletivamente recursos para essas instituições obtendo como contrapartida direitos sobre os resultados de pesquisas. Fundações semiprivadas recebem esses recursos e os utilizam sem prestar contas de acordo com os critérios de transparência que regem a administração pública. Os correntes escândalos nos quais essas fundações se encontram envolvidas revelam uma pequena parte dos obscuros negócios dos quais tomam parte.”. Ver BIANCHI, Alvaro; BRAGA, Ruy. “Um conto de duas universidades”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 54. 

[16] “Atualmente, quer estejamos analisando laboratórios de empresas públicas voltadas para a inovação, quer estejamos estudando o processo de incubação de empresas tecnológicas financiadas por agências de fomento à pesquisa em universidades de excelência, encontraremos a mesma lógica produtivista que controla as corporações privadas regulando o trabalho científico e acadêmico por meio da aceleração dos ciclos, do estabelecimento de metas, da organização por ‘unidades de negócios’, da formação de equipes e da flexibilidade do trabalho intelectual. Isso sem falar na pressão quase ‘taylorista’ exercida sobre os pesquisadores para patentear novos processos e produtos ou publicar dezenas de artigos em revistas indexadas.”. Ver BIANCHI, Alvaro; BRAGA, Ruy. “Um conto de duas universidades”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 55. 

[17] “(...) Ao final de um certo período, contabiliza-se o total produzido: ou toneladas de carvão ou artigos publicados. No caso da ciência, os resultados obtidos poderão encher de satisfação a burocracia acadêmica, mas dizem muito pouco sobre o conhecimento realmente produzido no Brasil. A seleção dos destinatários dos recursos disponíveis segundo essa lógica mercantil e produtivista poderá condenar a produção científica feita no Brasil à irrelevância.”. Ver BIANCHI, Alvaro; BRAGA, Ruy. “Um conto de duas universidades”. In: Revista Cult. [et al]. DOSSIÊ: O conflito das universidades. – São Paulo: Edirora Bregantini, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 55. 

[18] “Enquanto prevalecer essa tensão no sistema superior de ensino e a pesquisa for produzida pela lógica mercantil finaceirizada e globalizada, a evidente crise da universidade não terá fim e o conto de duas universidades não chegará a seu desfecho. Para que a universidade brasileira reencontre o caminho que a torne relevante tanto em termos sociais quanto em termos científicos, ela precisa urgentemente se reconciliar com o conhecimento crítico, reflexivo e, por isso mesmo, insubmisso aos interesses mercantis. Caso contrário, estaremos condenados a simplesmente reproduzir as desigualdades que historicamente marcaram a universidade brasileira,”. Ibidem, 2009. Ano 12. Nº 138, p. 55.


sexta-feira, 4 de outubro de 2019



O Amargo Avanço do Vírus da Vaidade.[1]


[1] Boletim Informativo do Núcleo de Estudos Foucaultiano Ano 7 – Nº 0003 Outubro/ 2019 – São Raimundo Nonato.


                                           © Agencia Rafão Design, 2019.


Gênesis Naum de Farias – Pesquisador da Universidade 
Estadual do Piauí – UESPI/ Coordenador do Núcleo de Estudos Foucaultiano. 

Estamos todos condenados pelo vírus da vaidade. Essa afirmativa nos impõe algumas consequências, de causa e efeito, que naturalmente, e por longo tempo, nos conduzirá pelo limiar do total esquecimento. É como se tivéssemos bebido ou tocado nas águas do rio Lethes...[3]Temos nos tornado isolados e soberbos porque, simplesmente, deixamos de confiar no ser humano; é como se o outro tivesse que ser plateia o tempo todo; sempre coadjuvante nunca protagonista. Se não confiamos nos sujeitos humanos, por que deveremos esperar dele confiança mútua?
O teatro é o melhor espaço para verificarmos in loco todas as constatações dos efeitos nocivos dessa doença silenciosa que corrói o ser humano; isto porque assim como descreveu Aristóteles (384 a. C. – 322 a. C.) sobre o seu Método Trágico Coercitivo, os sujeitos, tidos como humanos estão cada dia mais isolados, egocêntricos, pervertidos, cegos e indiferentes aos problemas do outro. A ideia proposta pelo filósofo grego é também uma proposição de escolarização ao domínio; queremos dominar sempre, e, para tanto, é preciso dividir sem repartir; dividir pessoas sem compartilhar proposições; dividir plateias por entre especulações; dividir para alcançar o domínio total. Ou seja, uns ocuparão o lugar de fala do espectador, enquanto outros serão os protagonistas da cena. Mas esse contexto requer divisão de tarefas, e, quase sempre requer dividir anseios, propostas e projetos. Como a humanidade não quer dividir com todos o tudo, nem o nada acabamos visualizando a cena mais trágica que caracterizará os atos seguintes rumo ao isolamento total da espécie.
Nesse amargo avanço do vírus da vaidade, os indivíduos acabam requerendo para si a percepção fatal da desconfiança, que não transforma nada; que gera mais isolamento e incompreensão, tornando-nos seres desconfiados, maliciosos, sem maturidade, e, produtos de uma retórica vazia.
A provocação nos remete a uma questão de pesquisa, que se impõe como afirmativa: Se estamos isolados e não participamos das decisões, toda e qualquer percepção da realidade passa a ser fruto de uma retórica sem nenhuma função, isto porque passamos a compreender o cotidiano como produto de uma ação regulada pela ansiedade, e, o resultado é o total descumprimento de nossas funções sociais, porque não há sentido respeitar, quando não somos respeitados; não há sentido conjugar quando somos apenas julgados; não há sentido de participação quando não somos impelidos a participar das decisões.
Por isso o vírus da vaidade se impõe para nos tornarmos cegos nas nossas próprias concepções, e, com o tempo, ele vai corroendo nossas vísceras, nossos desejos, nossas ações, nossos sonhos e nos tornamos uma mercadoria sem o nítido valor esperado, pois tudo em nosso redor é tanta coisa e é coisa nenhuma, mesmo quando não faltam motivos para se crer que vivemos em tempos sombrios.
Contrariando a ordem dos acontecimentos, é sempre importante relembrar o que deixou implícito em sua obra o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), sobre os efeitos provocados pela esterilização da racionalidade, ou até mesmo, de verdades impolutas, que levam os homens a se distanciarem da natureza e se corromperem, degenerando a essência de si no plano das virtudes cívicas, ao ser inserido nas sangrias dos vícios da realidade, limitando-se a caminhar para os reinos inferiores da cultura.
Muito antes dessa onda de ansiedades invadirem o universo social, certamente se soubéssemos no que daria o atropelo neocolonialista de se pretender civilizar o mundo teríamos compreendido o que terminou por gerar isso que se vê na contemporaneidade com a radicalização dos tempos líquidos, feito por sujeitos panfletários, e desajustados. A idade da razão nos dirá: nunca houve e nem haverá comunhão entre os desiguais, porque o que está faltando é diálogo. Sem diálogo, não há possibilidade de haver comunhão!
Essa máxima não é de Sartre, mas poderia sê-lo, pois se constata que o estado de direito corre perigo porque a sociedade anda desarticulada nesse quadro social de instabilidades, onde quem detém o poder simbólico da cultura oprimi também, e encaminham tudo e todos para um fosso mais que imediato; muitas vezes, essa articulação é regulada por aqueles que também transitam pela retórica da autonomia e da liberdade de expressão, quando na verdade, lidam com esses discursos de forma muito aparente, e, em lugar de agregar referências, dão mais vazão ao traço mais perverso da opressão, ao transmitir para o outro uma lógica de perfeição advinda daquilo que se esconde por trás da vaidade mais que perfeita, ao deixarem a opinião do seu interlocutor sem canais de nenhuma apropriada comunicação, como se não houvesse sentido nem lugar de fala. Isso ocorre com muita frequência no meio intelectual, lido como humanistas, porém tão desconectados com o real que chegam a ver fantasmas, onde só há pessoas querendo comunicar suas próprias limitações.
Já se faz tarde a hora da retirada destas cenas da vida pública, pois assim como na França jacobina do século XVIII não se encontra espaço para dialogar com o presente, em meio a tantos desassossegos, porque não há lei nem justiça para a sentença do desespero, em meio aos desiguais, e, o tempo anda muito escuro, guardando tramas e segredos diante das denuncias impostas pelo medo institucional.
Enfim, ao menos devemos aceitar a teoria definitiva da existência proposta por José Maria de Eça Queiroz[4] nos episódios da vida romântica descrito na obra Os Maias: “Nada a desejar, nada a recear, não se abandonar uma esperança, nem um desapontamento, tudo aceitar, o que vem e o que foge...”.    

  





[2] Pesquisador da Universidade Estadual do Piauí – UESPI/ Coordenador do Núcleo de Estudos Foucaultiano.

[3] Na mitologia grega, Lethes é o nome de um dos rios do Hades, capaz de fazer esquecer quem o bebesse dele ou apenas o tocasse. Lethes também significa “esquecimento”.
[4] Escritor e diplomata português. É considerado um dos mais importantes escritores portugueses da chamada Geração dos Vencidos. Escreveu Os Maias, considerado por muitos o melhor romance realista português do século XIX.


Estamos todos condenados pelo vírus da vaidade. Essa afirmativa nos impõe algumas consequências, de causa e efeito, que naturalmente, e por longo tempo, nos conduzirá pelo limiar do total esquecimento. É como se tivéssemos bebido ou tocado nas águas do rio Lethes...[1]Temos nos tornado isolados e soberbos porque, simplesmente, deixamos de confiar no ser humano; é como se o outro tivesse que ser plateia o tempo todo; sempre coadjuvante nunca protagonista. Se não confiamos nos sujeitos humanos, por que deveremos esperar dele confiança mútua?
O teatro é o melhor espaço para verificarmos in loco todas as constatações dos efeitos nocivos dessa doença silenciosa que corrói o ser humano; isto porque assim como descreveu Aristóteles (384 a. C. – 322 a. C.) sobre o seu Método Trágico Coercitivo, os sujeitos, tidos como humanos estão cada dia mais isolados, egocêntricos, pervertidos, cegos e indiferentes aos problemas do outro. A ideia proposta pelo filósofo grego é também uma proposição de escolarização ao domínio; queremos dominar sempre, e, para tanto, é preciso dividir sem repartir; dividir pessoas sem compartilhar proposições; dividir plateias por entre especulações; dividir para alcançar o domínio total. Ou seja, uns ocuparão o lugar de fala do espectador, enquanto outros serão os protagonistas da cena. Mas esse contexto requer divisão de tarefas, e, quase sempre requer dividir anseios, propostas e projetos. Como a humanidade não quer dividir com todos o tudo, nem o nada acabamos visualizando a cena mais trágica que caracterizará os atos seguintes rumo ao isolamento total da espécie.
Nesse amargo avanço do vírus da vaidade, os indivíduos acabam requerendo para si a percepção fatal da desconfiança, que não transforma nada; que gera mais isolamento e incompreensão, tornando-nos seres desconfiados, maliciosos, sem maturidade, e, produtos de uma retórica vazia.
A provocação nos remete a uma questão de pesquisa, que se impõe como afirmativa: Se estamos isolados e não participamos das decisões, toda e qualquer percepção da realidade passa a ser fruto de uma retórica sem nenhuma função, isto porque passamos a compreender o cotidiano como produto de uma ação regulada pela ansiedade, e, o resultado é o total descumprimento de nossas funções sociais, porque não há sentido respeitar, quando não somos respeitados; não há sentido conjugar quando somos apenas julgados; não há sentido de participação quando não somos impelidos a participar das decisões.
Por isso o vírus da vaidade se impõe para nos tornarmos cegos nas nossas próprias concepções, e, com o tempo, ele vai corroendo nossas vísceras, nossos desejos, nossas ações, nossos sonhos e nos tornamos uma mercadoria sem o nítido valor esperado, pois tudo em nosso redor é tanta coisa e é coisa nenhuma, mesmo quando não faltam motivos para se crer que vivemos em tempos sombrios.
Contrariando a ordem dos acontecimentos, é sempre importante relembrar o que deixou implícito em sua obra o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), sobre os efeitos provocados pela esterilização da racionalidade, ou até mesmo, de verdades impolutas, que levam os homens a se distanciarem da natureza e se corromperem, degenerando a essência de si no plano das virtudes cívicas, ao ser inserido nas sangrias dos vícios da realidade, limitando-se a caminhar para os reinos inferiores da cultura.
Muito antes dessa onda de ansiedades invadirem o universo social, certamente se soubéssemos no que daria o atropelo neocolonialista de se pretender civilizar o mundo teríamos compreendido o que terminou por gerar isso que se vê na contemporaneidade com a radicalização dos tempos líquidos, feito por sujeitos panfletários, e desajustados. A idade da razão nos dirá: nunca houve e nem haverá comunhão entre os desiguais, porque o que está faltando é diálogo. Sem diálogo, não há possibilidade de haver comunhão!
Essa máxima não é de Sartre, mas poderia sê-lo, pois se constata que o estado de direito corre perigo porque a sociedade anda desarticulada nesse quadro social de instabilidades, onde quem detém o poder simbólico da cultura oprimi também, e encaminham tudo e todos para um fosso mais que imediato; muitas vezes, essa articulação é regulada por aqueles que também transitam pela retórica da autonomia e da liberdade de expressão, quando na verdade, lidam com esses discursos de forma muito aparente, e, em lugar de agregar referências, dão mais vazão ao traço mais perverso da opressão, ao transmitir para o outro uma lógica de perfeição advinda daquilo que se esconde por trás da vaidade mais que perfeita, ao deixarem a opinião do seu interlocutor sem canais de nenhuma apropriada comunicação, como se não houvesse sentido nem lugar de fala. Isso ocorre com muita frequência no meio intelectual, lido como humanistas, porém tão desconectados com o real que chegam a ver fantasmas, onde só há pessoas querendo comunicar suas próprias limitações.
Já se faz tarde a hora da retirada destas cenas da vida pública, pois assim como na França jacobina do século XVIII não se encontra espaço para dialogar com o presente, em meio a tantos desassossegos, porque não há lei nem justiça para a sentença do desespero, em meio aos desiguais, e, o tempo anda muito escuro, guardando tramas e segredos diante das denuncias impostas pelo medo institucional.
Enfim, ao menos devemos aceitar a teoria definitiva da existência proposta por José Maria de Eça Queiroz[2] nos episódios da vida romântica descrito na obra Os Maias: “Nada a desejar, nada a recear, não se abandonar uma esperança, nem um desapontamento, tudo aceitar, o que vem e o que foge...”.    

  




[1] Na mitologia grega, Lethes é o nome de um dos rios do Hades, capaz de fazer esquecer quem o bebesse dele ou apenas o tocasse. Lethes também significa “esquecimento”.

[2] Escritor e diplomata português. É considerado um dos mais importantes escritores portugueses da chamada Geração dos Vencidos. Escreveu Os Maias, considerado por muitos o melhor romance realista português do século XIX.

domingo, 28 de outubro de 2018

Celestino Gomes: O Corvo das Ideias Primordiais






Morreu há alguns anos atrás, mais precisamente num mês despedaçado, o mais importante petrolinense que tive a honra de conhecer e ouvi-lo falar na sua distante mansidão, na sua atormentada placidez, nos seus retoques sem muitas ambições e dotado do requinte celeste dos astros iluminados que brilham nas estepes como lírios de fogo, pois sua frenética evocação já era maior do que as histórias orais que se contavam aos montes sobre sua notória rebeldia, relatados às várias bocas pelos que o julgavam como um louco ou uma manifestação folclórica. Não havia dúvida que poderíamos trata-lo como o nosso cavaleiro mais ilustre, dono de uma beleza muito íntima.  Há dias, via-me triste e perturbado com o curso da sua enfermidade. Sua dor silenciosa e de ressonância particular me incomodava profundamente, pois na sua presença se podia ver que era um sujeito forte e valente, que se resguardava e se fortalecia dia a dia com o brilho do sol de sua terra e a presença do rio em sua vida, frente aos vários desassossegos que enfrentava. Hoje entendo que o excêntrico e amável Celestino Gomes se eternizou ao dar vida e sentido a tudo que fez na genialidade do seu traço, que se alinhava à inquietação latente da sua triste existência de peregrino solitário. Tudo em si afirmava o primado dos valores que vivamente assimilava, impregnando seus quadros de uma eclosão de essências documentais. No dia da sua partida, percebi o quanto Petrolina ficou mais umedecida diante da incerteza das horas. E só uma cidade sabe o que é não ter mais por perto a força de um grande olhar, na figura do seu maior artista. Petrolina perdeu não só um dos seus maiores memorialista, que não se cansou de retratá-la, mas a doçura de um ser que transcendeu as suas esquinas, as suas praças, as suas ruas, ao seu encanto. Seu desaparecimento nos deixou também muito pobres. Era a enigmática presença de um ícone de luz que transparecia sua tristeza nas delações pessoais que fazia, atemorizado com os rumos que o conduziria a outra cruzada espiritual. Agora compreendo que a arte ribeirinha ficou sem uma de suas vozes mais libertárias. Sua independência diante das convenções sociais incomodava e causava calafrio em muitos figurões desta astuta e insensível paragem de tropeiros, beradeiros e aventureiros, porque Celestino Gomes era capaz de alçar voos muito altos, diante da tomada de uma decisão em favor dos muitos esfaimados pela sorte. Mas Celestino seguiu seu curso natural, ao enfrentar o desconhecido. A vivacidade que protelava sua inspiração traria o reconhecimento tardio da sua produção artística e, somente a posteridade saberá coroa-la com a grandeza do sertão que ele imortalizou, já que com indiferença foi tantas vezes julgado e impiedosamente atacado. Ao refletir sobre a morte do poeta dos pincéis celestiais, veio-me em pensamento aquilo que iguala tudo e todos, frente ao real espelho do sofrimento, e fui calado com a sublime provocação de que o veio principal de um coração bélico, como o dele, era possuir o ideal da redenção daqueles que sonham com o enriquecimento humano dos que o circundam. Agora posso chamá-lo, como dizia Miguel de Cervantes, do seu cavaleiro da triste figura –; ele era um quixotesco perfeito. E foi esta figura universal que recobrou da minha ingênua escrita à candura das muitas perguntas que fervilhava a minha emoção naquela manhã ao ver seu corpo sendo levado ao cemitério, diante de uma cidade estranha, rude, cinzenta, pálida e perdidamente enlutada... Presumo ser apropriado falar do velho Celestino Gomes, quando ele mesmo se predispôs a se identificar retratando o Vale do São Francisco como sua pátria afetiva, em variados tons, passível de multiplicidade melódica, ritmada em pinceladas de vibração estonteante. Nesses instantes, sua realçada maturidade, sem enfeites nem adereços, falava através dele, ao retratar a realidade de sua gente, ao tempo em que a ninguém deixou indiferente. Celestino não estava, de forma alguma, alheio à importância daqueles com os quais se defrontava. No entanto, julgou-os a todos sem que jamais alguém pudesse perceber qual seria a sua verdadeira intenção. Mesmo assim, sua obra falará por si, pois registrou sua própria temporalidade, no gratuito desfilar de suas personagens, nas cores e contrastes de sua querida terra. Não se tratava propriamente de uma releitura caricatural, mas de um gênero em tons de despedida, de quem se esforçava de forma sincera para recompensar aquilo que lhe era peculiar, no refúgio das coisas imprecisas, dispersas pelo mundo, acolhendo também o seu retorno, despendido por tão longo período em prol de um trabalho já bastante consolidado. Sua intuitiva passividade, mais tarde, serviria de panorama para as diferentes reminiscências de um caráter pessoal, independente e evoluído. No entanto, o que conta, o que pesa mesmo é o fabuloso registro da sua aldeia, que ele parece ter arquivado e que um dia retornará com a redobrada força de seus mistérios. Ao retratar seus feitos, em dois livros, a sua imponente experiência cresce e se enaltece, pois passados alguns anos da publicação e diante do seu imaginário pictórico, podemos presumir o quanto – o velho pintor do rio – já se conhecia e se autorretratava com perfeição. Da mesma forma, e com o mesmo vigor característico, Celestino Gomes perambulava pelas ruas e se defrontava com a hostilidade dos olhares para com ele, mas conservava sempre aquele mesmo ar entre espantado e severo, de quem adivinhava o que iriam fazer com sua memória. Sua impoluta liberdade obrigava os altivos e orgulhosos a se curvarem diante dele, não por reverência, mas apenas para ouvi-lo melhor, em atenta cordialidade à sua sublime compreensão de vida diante da decomposição dos claros estigmas, o que dava afinal o mesmo resultado, devido à sabedoria que brotava dos seus vivos olhos azuis. Neste pequeno painel de recordação, Celestino Gomes estará sempre revestido de muita luminosidade e simplicidade. Suas lembranças, mesmo que diminuída com passar dos anos, sempre me resguardará uma atenção quase sardônica. Mas estou falando dessa estranha personagem, e o apresento como um imenso simulacro de considerações nas suas infindas investigações, no empenho de atingir o senso daquilo que lhe é essencial na sua substância plástica, na matéria palpável de sua deslumbrante personalidade, como um misto lamentável de não ter tido a honra de conhecê-lo a fundo, na romântica petrolinidade desse nosso herói, que sempre merecerá ser lembrado como o mais notável cidadão petrolinense. Sua intensa criatividade era sempre vista como uma joia de raríssimo valor, porque sem escrever um único verso, se tornou realmente um grande poeta; retinha “uma candura que insiste em dizer-nos que és feito do fogo, do rio e de sol”.[1] Seus tons de cinza, vermelho china, verde desbotado e azul cerúleo, nos lembra o extraordinário pintor holandês em seu canibalismo, empunhando sua expressão ameaçadora. E repito na insistência das palavras, Celestino sempre será reluzente, mesmo quando ignorava o sentido simbólico de suas ações e principalmente diante de sua expressiva nostalgia de menino afoito e matreiro. Nisto, ele se parece com um pequeno e sábio corvo – sabendo que essa ave é o símbolo das ideias primordiais –; na sua proposital humildade diante do desapego que o revestia de celestes “arco-íris tingidos de tonalidades que nos acalentam e libertam”,[2] mas já vivendo num plano superior, como todas as aves solitárias. Na noite do falecimento total da sua lida de almirante, o céu se desmanchou e transbordou em lágrimas. Há muito ninguém o percebia passeando no Cais dos Guararapes; à beira do velho rio –; sua morada jeitosa, para onde queria ser levado para um último adeus. Era um pedido longínquo. A sua sina de marinheiro e boêmio em peregrinação, o tinha deixado numa ressaca interminável com os fatos do cotidiano, preferindo o isolamento sucinto nas plagas da ilha do silêncio; na torre do seu castelo de sonhos, ilusões, devaneios e lutas infindáveis para escapar do frio daquele degredo. O continente, naqueles dias, só ficou sabendo das últimas notícias porque os ventos do norte trouxeram mensagens da península, onde não mais poderia habitar por falta de proteção. Era o desaparecimento de um mito, que por toda a vida migrou pelos caminhos, de sua infinita paz interior, na labuta contra o isolamento, chegando mesmo a ver caravelas onde só havia o desolado vai e vem das ondas que abrigavam sua nobreza e caráter. Seu último pedido foi que o enterrassem com sua magnífica espada numa encosta da ilha; perto do rio – longe de tudo e de todos – Já estava muito além do lugar comum! O próprio dizia, mesmo que ninguém o tenha visto falar, que possuía dois amigos muito próximos: um deputado da República para em fraternidade trocar confissões ao relembrarem a infância de outras épocas, e um talentoso escritor, para os bordejos mais sinceros na elegante miragem que o rio os proporcionava ali na beira das tardes, na companhia solícita do pôr do sol. Na verdade, nunca houve muita conversa nesses encontros, pois ambos pensavam a vida e, por entre becos e alamedas, o diálogo acabava estacionando-os nos casarios da Rua do Grude numa solidão simples, cheia de pressentimentos, amargos contentamentos e uma viva esperança no futuro ausente. Era assim a sua vida nas barrancas do São Francisco. Sua trajetória fora uma grande e tumultuosa lenda, gerada a partir de aflições monumentais. Enterrou vidas e viveu suficientemente bem para sofrer sete solidões e se maldizer do que viu nesses longos anos de trabalho. Era como se uma ordem secular partisse e deixasse o sentimento de ameaça tomar conta da sina dos seus contemporâneos. Muitos diziam que ele não fazia parte deste mundo, possuía um particular, pois vivia encourado nas vestes da honestidade, e sua rápida transposição era o que muitos almejavam, para fazer-se esquecer do que um dia fora dito de sua boca em profecias malditas que afetaram os brios católicos da província mestiça com ares de pureza, mas com traquejos de uma sociedade sem tradição nas ideias. Era como se costumava dizer daquele citadino, de relevância sutil e encanto singular, que aos poucos, transformava sua estética quase mítica numa lembrança necessária. Poucos foram os que puderam contemplá-lo nestes últimos anos em que sua intransigente irreverência celebrava conflitos e aparições ilusórias, porém alimentavam sua assombrosa imaginação para os devaneios e os alentos nas sobrevidas do Velho Chico. O lema dos seus dias sempre fora a esplêndida familiaridade com o abandono em sua total imparcialidade; era um humanista que sonhava com um mundo liberto de tiranias. Neste instante se saúda sua memória, arrastando pesares cerimoniosos em respeito ao pensador anarquista que olhava a todos como se tivesse pagado para ver um espetáculo. Ao morrer deixou escrito um inventário sobre suas vivências, que poderá ser lido como fenomenologia dessa Modernidade tão insipiente, transparecendo sua lucidez para afirmar sua condição de filósofo, a nos mostrar as dores de parto da era industrial, onde o ser não tem espaço diante do profundo vazio proposto pela especulação niilista, nem olha dentro de si mesmo, frente a imensurável frieza nas relações humanas. Falarão no futuro que àqueles que estão perdidos sobre um abismo e em contato com a imensidade, ficam abandonados a todos os excessos do heroísmo, da loucura ou do horror. Evidentemente, que sua conduta jamais será submetida à prova de tão horrenda força diabólica, visto que a realeza dos seus atos de lealdade será nitidamente visto como algo que sucumbiu ao isolamento mais absoluto e fora capaz de esperançar, viver e lutar pelas mais nobres causas.  Sua elegância tornava o funeral um tanto quanto sinistro; sua companheira de sempre – a solidão – estava lá, ao lado de um cão em silêncio, contemplando uma nova perspectiva sobre a alma do féretro –; montavam guarda como negros corvos. Havia uma mensagem implícita de que não gostaria de morrer com terrores suplementares, mas tranquilamente, numa espécie de sono sereno. Parafraseando o escritor inglês Joseph Conrad, certa aptidão para a morte não é coisa tão rara, mas o que é raro é encontrar homens cujo coração, revestido de uma impenetrável armadura, esteja pronto para conduzir até o fim uma batalha perdida. Só os que lutam contra forças brutais conhecem bem esse desejo; homens que entram na história pela porta da frente, enfrentando as cegas potências da natureza ou a brutalidade estúpida das multidões. A alusão despertada por essa imagem, recortada de Conrad, nos faz pensar tão mais na importância das referências dos grandes artistas por recuperarem do esquecimento àquilo que em prece sepultada, traz do passado o seu longínquo espírito multifacetado, ensejado da poesia que foi capaz de conceber, traduzido nos atentos gestos os acenos da saudade – ou, como diz Adorno em seu ensaio Sobre a cena final do Fausto: “Esperança não é a lembrança fixada, mas sim o retorno do esquecido”.




[1] Os versos citados e destacados neste texto são do Poeta Virgílio Siqueira.

[2] IDEM.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015


A Casa das Sete Luas
                                                                      

                                                                                                                         Gênesis Naum de Farias



Nas Ruas do Velho Centro Comercial, por estes dias passeia a doce Salete, travestida no seu fino xaile, doado por um cliente caridoso, que amante da noite, tecia seu véu de ternura em galanteios eloqüentes e muito decote. Porém, na rua, os últimos ruídos da noite, cada vez mais distantes, armavam sua teia de ternura pelo tempo com a profusão dos espíritos de uma rebeldia romântica e muito desnuda, ao febril e evasivo tormento dos seus palácios. Era aquela travesti do antigo cabaré Tombadim do Mariano, bêbada e velha a lembrar saudosa, seus belos dias nas épocas dos tempos, vaidosa que era no romantismo das lembranças e das saudosas noites do sertão ribeirinho. Era ela, bela e agradável a vista, tal qual um belo anjo estampado no frontispício de um velho altar de igreja sorumbática.

Naquele bordel, mais conhecido como o Recreio da Lua Branca ou A Casa das Sete Luas, um dia cantou noitadas, viveu feliz e amou a vida como o último instante de sua jovialidade, mas entrou para a história, com os seus sofrimentos, porque amou um nobre, falido; uma espécie de dândi contumaz, bem generoso, que viajava sempre daqui pra li, sem cultivar da crítica citadina, certa estima, por isso sofreu os dissabores nos dias de frio e solidão.

Seu jeito calmo contagiava a boemia da cidade dos impossíveis e imperava sua majestade por onde passava. Era a sonhadora de um viver triste, mas sempre feliz em sua pequena timidez, preferia o beijo esperado por muito tempo, porque lhe saciava a alma e fazia-se valorizar no grande momento da ausente volúpia; de róseas face, de dourada tez e olhos de ressaca, negros e embaçados que, com sua pureza, diziam tudo e não dizia nada, mesmo sabendo que por onde passasse, sua linguagem e seu cheiro, sofria a censura dos olhares provincianos do povo desta terra, mas redimida e embelezada, oferecia-se em contemplações de abandono e má fé pelos que de longe sussurravam seu velho e bom passado.

Sua sensualidade poética idealizou-se nas mesas da luxúria, num parto imaginário, sem rumo nem reverso, transcrevendo a forma mais alegórica do cotidiano de uma velha prostituta, do largo mais famoso e badalado da Passagem de Joazeiro, com suas amigas voluptuosas e seus deslumbrados fregueses, sejam eles poetas ou homens ricos e donos do poder político. Na sua morada de perdição e sossego, o pecado parecia não existir, pois seu cheiro, sua classe e o seu glamour povoavam o sonho febril dos donatários destas terras e seus comércios. Ela era uma messalina, e o impressionante é como os homens apreciam essa gente.

O lugar era povoado de muita sutileza, sabendo que além de mulheres voluptuosas, seu largo recebia diariamente homens cultos, políticos e toda uma gama de santos envolvidos pelo ar do mistério e anonimato ali presente como ingredientes para boa conversa, traições, prevaricações e festas noturnas. Entretanto, apesar do glamour, aquelas mulheres representavam a verdadeira mazela produzida pelo progresso da sociedade, com seus preconceitos entranhados no recalque social. No entanto, aquele reduto boêmio abrigava metáforas vivas, pois retratava o pacto social, envelhecido nas insanas hostilidades da época.

A Casa das Sete Luas retratava todo o abandono sofrido pelas funcionárias voluptuosas e suas personagens clássicas advindas dos palácios de antigas cidades portuárias. Salete, órfão de pai e filha da cidadezinha mineira Santana dos Ferros, se perdeu de amor por um boêmio, desses da chamada geração perdida, que intrigava a todos com o seu excesso de pudor ao quebrar barreiras se apaixonar por aquelas musas a desnudar. A mesma chegou a receber presentes de homens ricos e até propostas de casamento, mas dizia que seu lugar era no Tombadim, porque figurava o insaciável desejo pelo prazer e a boa vida oferecida pelos moradores bem dignos desta província.

A própria Salete dizia que era uma figura carregada de significados simbólicos, devido à sua beleza, mas sabia que era amaldiçoada pelas famílias puritanas, porém amada noite adentro pelos grandes donatários destas cercanias, madrugadores em busca de prazeres nas camaradagens das noites do Tombadim. Hoje Salete definitivamente assombra, assusta e se deslumbra com a sua memória, pois troca encantos relembrando sua jovial e temperada época de cabaré em cabaré, a dançar despudoradamente no seu deleite desvelado e antipuritano; a sonhar, no seu portar magistral de pobrezas simples, em fragmentados lençóis, com os amores turvos de sua mocidade, com o ouvido atento aos boleros e as marchas de carnaval em lânguidos e dolências de desencontros, escondidos na humildade e revelado na timidez de cenas quase cinematográficas, através do mundo áspero e cruel do destino.

Sua vida marginal e apaixonada marca o tempo no rebento de sua máscara, pois disfarçada de mulher no espaço das luas brancas e dos amores distantes, passeia pelas ruas do nosso tempo como uma mulher bêbada e sofrida, mas saúda o seu tempo na casa dos afetos, como o ponto fixo de sua existência, que um dia sonhou violar com sua infância estelar no lugar mais mágico de sua mocidade, impressos na sua alma como o ponto cardial que nunca mais poderá voltar.

  
_____________.
FARIAS, Gênesis Naum de. Lavoura de Insônias. – São Paulo: Scortecci, 2015. p. 170-172.

domingo, 22 de junho de 2014

Lançamento do Romance do Poeta



A ALDEIA DO TEMPO - Uma Introdução Amorosa aos Lugares de Memória da Vila Rica do Ouro Preto.

O mergulho no mundo das ideias de uma outra época dá o tom para a busca pelo equilíbrio e comunhão nesta primeira ficção romanesca, e quase sempre depende de frases não ditas e perguntas não feitas ao passado. Por Gênesis Naum de Farias.



A discussão deste romance histórico, que é por si mesmo um ensaio crítico, assume o compromisso de refletir as questões que interessam às mudanças cruciais ocorridas no Brasil Colonial quando do advento da Inconfidência Mineira, quando um velho frade da Vila Rica Colonial retorna do passado sombrio, nas masmorras da Fortaleza Ilha de São José das Cobras no Rio de Janeiro, para relatar o que viu e experenciou com o terrível processo das Devassas. Um homem que encontrou a liberdade no lugar mais improvável de sua alma: no nobre ato de querer confessar-se com os homens. O livro relata o seu envolvimento no motim que deflagrou numa considerável resolução sobre o conflito político entre a Conjura Mineira e a Corte Portuguesa nos idos de 1789, bem como ao modo como se aplicou a causa. E com certa confiança em demasia, relata seus feitos nas tramas da História, atravessando outros riachos numa epopéia de sofrimentos, eternamente recortada por tempos sonoros, onde a liberdade quase que tardia norteava sonhos tão antigos quanto o vasto solo brasileiro... A personagem principal se coloca neste tumultuado devaneio por ter rompido o recato, honrado e delicado, ao expor em público seus erros e suas misérias, angústias e desilusões, forçando-se a rasgar o véu de decência que o tempo cuidará de cicatrizar, sem a pressa de uma certeza rápida para o desenrolar dos acontecimentos tardios. A personagem expõe também suas fragilidades de modo singelo e cru, pondo-se diante do indulgente cenário desta terra sitiada pelo dramático, mas visceral acontecimento. É bem sabido que o mês de outubro de 1788 foi o mês em que culminou o processo de levante pela libertação das terras brasileiras nas Minas Gerais. Tempos depois, as lembranças da personagem no enredo seriam resguardadas à total indolência e ao desespero odioso de uma ansiedade provida pelo que foi pensado e executado, e pelo que foi desfeito a contragosto de todos com períodos de total indefinição e alheamento, pois muitos dos seus companheiros de ideais passaram por excussões desumanas ou períodos de extradição lamentáveis não só corpóreas, mas espirituais, revelando a simplicidade e devoção de uma vida caótica e pobre. Muitos foram torturados, outros trucidados e, outros tantos que faziam parte do clero constituído, foram relegados a uma pena não publicada nos anais da referendagem popular, mas como a historiografia documentou, sofreram na pele a dor de serem punidos – como os desviantes no Inferno – com sinais de indignidade e impiedade recorrente do ódio demoníaco dos poderosos representantes dos monarcas, quando, indefesos, foram renegados, como os anjos traidores, e confinados em masmorras fétidas e claustrofóbicas – como foi o caso destas personagens – sem o mínimo balbuciar de vozes errantes (tão reconfortantes nesses momentos) fora das prisões. Tudo isso por terem sonhado com a libertação dos homens cativos em prol de uma civilização igualitária e por ter planejado e conspirado para tornar independente o povo brasileiro. O Abolicionista Joaquim Nabuco sentenciaria: “(...) As lendas hão de sempre viver, como raios de luz na treva amontoada do passado, mas a beleza delas não está em sua verdade, que é sempre pequena; está no esforço que a humanidade faz para assim reter alguns episódios de uma vida tão extensa que para abrangê-la não há memória possível...”.
No Evento acontecerá: 
Conferência: Entre Simbologia e Imaginário: Construção e Desconstrução dos Mitos na História do Brasil Republicano.
José de Arimatéa Vitoriano de Oliveira
Professor Mestre em História/UESPI/UFC
Local: Pátio Central da UESPI
Dia: 03 de Setembro de 2014 (Quarta-Feira)
Horário: 20:00 horas
Entrada Franca: Será fornecido certificado 
Universidade Estadual do Piauí – UESPI/Campus Ariston Dias de Lima/Rua Antônio de Carvalho, s/n – Centro, São Raimundo Nonato (PI) - Brasil - 64770-000 - Telefone: (89) 3582-1312 e-mail: nucleofoucaultiano@gmail.com -                       Imprensa Foucaultiana®