Morreu há
alguns anos atrás, mais precisamente num mês despedaçado, o mais importante
petrolinense que tive a honra de conhecer e ouvi-lo falar na sua distante
mansidão, na sua atormentada placidez, nos seus retoques sem muitas ambições e
dotado do requinte celeste dos astros iluminados que brilham nas estepes como lírios
de fogo, pois sua frenética evocação já era maior do que as histórias orais
que se contavam aos montes sobre sua
notória rebeldia, relatados às várias bocas
pelos que o julgavam como um louco ou uma manifestação
folclórica. Não havia dúvida que poderíamos trata-lo como o nosso cavaleiro
mais ilustre, dono de uma beleza muito íntima. Há dias, via-me triste e perturbado com o
curso da sua enfermidade. Sua dor silenciosa e de ressonância particular me
incomodava profundamente, pois na sua presença se podia ver que era um sujeito forte e valente, que se resguardava e se fortalecia
dia a dia com o brilho do sol de sua terra e a presença do rio em sua vida,
frente aos vários desassossegos que enfrentava. Hoje entendo que o excêntrico e amável
Celestino Gomes se eternizou ao dar vida e
sentido a tudo que fez na genialidade do
seu traço, que se alinhava à inquietação latente
da sua triste existência de peregrino solitário. Tudo em si afirmava o primado
dos valores que vivamente assimilava,
impregnando seus quadros de uma eclosão de essências
documentais. No dia da sua partida, percebi o
quanto Petrolina ficou mais umedecida diante da incerteza das horas. E só uma
cidade sabe o que é não ter mais por perto a força de
um grande olhar, na figura do seu maior
artista. Petrolina perdeu não só um dos seus maiores memorialista, que não se
cansou de retratá-la, mas a doçura de um ser que transcendeu as suas esquinas,
as suas praças, as suas ruas, ao seu encanto. Seu desaparecimento nos deixou também muito pobres. Era a enigmática
presença de um ícone de luz que transparecia sua tristeza nas delações pessoais
que fazia, atemorizado com os rumos que o conduziria a outra cruzada
espiritual. Agora compreendo que a arte ribeirinha ficou sem uma de suas vozes
mais libertárias. Sua independência diante das convenções sociais incomodava e
causava calafrio em muitos figurões desta astuta e insensível paragem de
tropeiros, beradeiros e aventureiros,
porque Celestino Gomes era capaz de alçar voos muito altos, diante da tomada de
uma decisão em favor dos muitos esfaimados pela sorte. Mas Celestino seguiu seu
curso natural, ao enfrentar o desconhecido. A
vivacidade que protelava sua inspiração traria o reconhecimento tardio da sua produção
artística e, somente a posteridade saberá coroa-la com a grandeza do sertão que
ele imortalizou, já que com indiferença foi tantas vezes julgado e
impiedosamente atacado. Ao refletir sobre a
morte do poeta dos pincéis celestiais,
veio-me em pensamento aquilo que iguala tudo e
todos, frente ao real espelho do sofrimento, e fui calado com a sublime
provocação de que o veio principal de um coração bélico, como o dele, era
possuir o ideal da redenção daqueles que sonham com o enriquecimento humano dos
que o circundam. Agora posso chamá-lo, como dizia Miguel de Cervantes, do seu cavaleiro da triste figura –; ele era um
quixotesco perfeito. E foi esta figura universal que recobrou da minha ingênua
escrita à candura das muitas perguntas que fervilhava a minha emoção naquela manhã ao ver seu corpo sendo levado ao
cemitério, diante de uma cidade estranha, rude, cinzenta, pálida e perdidamente
enlutada... Presumo ser apropriado falar do velho Celestino Gomes, quando ele
mesmo se predispôs a se identificar retratando o Vale do São Francisco como sua pátria afetiva, em variados tons,
passível de multiplicidade melódica, ritmada em pinceladas de vibração
estonteante. Nesses instantes, sua realçada maturidade, sem enfeites nem
adereços, falava através dele, ao
retratar a realidade de sua gente, ao tempo em que a ninguém deixou
indiferente. Celestino não estava, de forma alguma, alheio à importância
daqueles com os quais se defrontava. No entanto, julgou-os a todos sem que
jamais alguém pudesse perceber qual seria a sua verdadeira intenção. Mesmo
assim, sua obra falará por si, pois registrou sua própria temporalidade, no
gratuito desfilar de suas personagens, nas cores e contrastes de sua querida
terra. Não se tratava propriamente de uma releitura caricatural, mas de um
gênero em tons de despedida, de quem se esforçava de forma sincera para
recompensar aquilo que lhe era peculiar, no refúgio das coisas imprecisas,
dispersas pelo mundo, acolhendo também o seu retorno, despendido por tão longo
período em prol de um trabalho já bastante consolidado.
Sua intuitiva passividade, mais tarde, serviria de panorama para as diferentes
reminiscências de um caráter pessoal, independente e evoluído. No entanto, o
que conta, o que pesa mesmo é o fabuloso registro da sua aldeia, que ele parece
ter arquivado e que um dia retornará com a redobrada força de seus mistérios. Ao retratar seus feitos, em dois livros, a sua
imponente experiência cresce e se enaltece, pois passados alguns anos da
publicação e diante do seu imaginário pictórico, podemos presumir o quanto – o
velho pintor do rio – já se conhecia e se autorretratava com perfeição. Da
mesma forma, e com o mesmo vigor característico, Celestino Gomes perambulava
pelas ruas e se defrontava com a hostilidade dos olhares para com ele, mas
conservava sempre aquele mesmo ar entre espantado e severo, de quem adivinhava
o que iriam fazer com sua memória. Sua
impoluta liberdade obrigava os altivos e orgulhosos a se curvarem diante dele,
não por reverência, mas apenas para ouvi-lo melhor, em atenta cordialidade à
sua sublime compreensão de vida diante da decomposição dos claros estigmas, o
que dava afinal o mesmo resultado, devido à sabedoria que brotava dos seus
vivos olhos azuis. Neste pequeno painel de recordação, Celestino Gomes estará
sempre revestido de muita luminosidade e simplicidade. Suas lembranças, mesmo
que diminuída com passar dos anos, sempre me resguardará uma atenção quase
sardônica. Mas estou falando dessa estranha personagem, e o apresento como um
imenso simulacro de
considerações nas suas infindas investigações, no empenho de atingir o
senso daquilo que lhe é essencial na sua substância plástica, na matéria
palpável de sua deslumbrante personalidade, como um misto lamentável de não ter
tido a honra de conhecê-lo a fundo, na romântica petrolinidade desse nosso herói, que sempre merecerá ser lembrado
como o mais notável cidadão petrolinense. Sua
intensa criatividade era sempre vista como uma joia de raríssimo valor, porque
sem escrever um único verso, se tornou realmente um grande poeta; retinha “uma candura que insiste em dizer-nos que és
feito do fogo, do rio e de sol”.[1] Seus tons de cinza, vermelho china,
verde desbotado e azul cerúleo, nos lembra o extraordinário pintor holandês em
seu canibalismo, empunhando sua expressão ameaçadora. E repito na insistência
das palavras, Celestino sempre será reluzente, mesmo quando ignorava o sentido
simbólico de suas ações e principalmente diante de sua expressiva nostalgia de
menino afoito e matreiro. Nisto, ele se parece com um pequeno e sábio corvo –
sabendo que essa ave é o símbolo das ideias primordiais –; na sua proposital
humildade diante do desapego que o revestia de
celestes “arco-íris tingidos de
tonalidades que nos acalentam e libertam”,[2]
mas já vivendo num plano superior, como todas as aves solitárias. Na noite do
falecimento total da sua lida de almirante, o céu se desmanchou e transbordou em lágrimas. Há muito ninguém o
percebia passeando no Cais dos Guararapes;
à beira do velho rio –; sua morada jeitosa, para onde queria ser levado para um
último adeus. Era um pedido longínquo. A sua sina de marinheiro e boêmio em
peregrinação, o tinha deixado numa ressaca interminável com os fatos do
cotidiano, preferindo o isolamento sucinto nas plagas da ilha do silêncio; na
torre do seu castelo de sonhos, ilusões, devaneios e lutas infindáveis para
escapar do frio daquele degredo. O continente, naqueles dias, só ficou sabendo
das últimas notícias porque os ventos do norte trouxeram mensagens da
península, onde não mais poderia habitar por falta de proteção. Era o
desaparecimento de um mito, que por toda a vida
migrou pelos caminhos, de sua infinita paz interior, na labuta contra o
isolamento, chegando mesmo a ver caravelas onde só havia o desolado vai e vem
das ondas que abrigavam sua nobreza e caráter. Seu último pedido foi que o
enterrassem com sua magnífica espada numa encosta da ilha;
perto do rio – longe de tudo e de todos – Já estava muito além do lugar comum!
O próprio dizia, mesmo que ninguém o tenha visto falar, que possuía dois amigos
muito próximos: um deputado da República
para em fraternidade trocar confissões ao relembrarem a infância de outras épocas, e um talentoso escritor, para os bordejos
mais sinceros na elegante miragem que o rio os proporcionava ali na beira das
tardes, na companhia solícita do pôr do sol. Na verdade, nunca houve muita
conversa nesses encontros, pois ambos pensavam a vida e, por entre becos e
alamedas, o diálogo acabava estacionando-os nos casarios da Rua do Grude numa solidão simples, cheia
de pressentimentos, amargos contentamentos e uma viva esperança no futuro
ausente. Era assim a sua vida nas barrancas do São Francisco. Sua trajetória fora uma grande e tumultuosa lenda, gerada a partir
de aflições monumentais. Enterrou vidas e viveu suficientemente bem para sofrer
sete solidões e se maldizer do que viu nesses longos anos de trabalho. Era como
se uma ordem secular partisse e deixasse o sentimento de ameaça tomar conta da
sina dos seus contemporâneos. Muitos diziam que ele não fazia parte deste
mundo, possuía um particular, pois vivia encourado nas vestes da honestidade, e
sua rápida transposição era o que muitos almejavam, para fazer-se esquecer do
que um dia fora dito de sua boca em profecias malditas que afetaram os brios
católicos da província mestiça
com ares de pureza, mas com traquejos de uma sociedade sem tradição nas ideias.
Era como se costumava dizer daquele citadino, de relevância sutil e encanto
singular, que aos poucos, transformava sua estética quase mítica numa lembrança necessária. Poucos foram os que
puderam contemplá-lo nestes últimos anos em que sua intransigente irreverência
celebrava conflitos e aparições ilusórias, porém alimentavam sua assombrosa
imaginação para os devaneios e os alentos nas sobrevidas do Velho Chico. O lema dos seus dias sempre
fora a esplêndida familiaridade com o abandono em sua total imparcialidade; era
um humanista que sonhava com um mundo liberto de
tiranias. Neste instante se saúda sua memória,
arrastando pesares cerimoniosos em respeito ao pensador anarquista que olhava a
todos como se tivesse pagado para ver um espetáculo. Ao morrer deixou escrito
um inventário sobre suas vivências, que poderá ser lido como fenomenologia
dessa Modernidade tão insipiente, transparecendo sua lucidez para afirmar sua
condição de filósofo, a nos mostrar as dores de parto da era industrial, onde o
ser não tem espaço diante do profundo
vazio proposto pela especulação niilista, nem olha dentro de si mesmo, frente a
imensurável frieza nas relações humanas. Falarão no futuro que àqueles que
estão perdidos sobre um abismo e em contato com
a imensidade, ficam abandonados a todos os excessos do heroísmo, da loucura ou
do horror. Evidentemente, que sua conduta jamais será submetida à prova de tão
horrenda força diabólica, visto que a realeza dos seus atos de lealdade será
nitidamente visto como algo que sucumbiu ao isolamento mais absoluto e fora
capaz de esperançar, viver e lutar pelas mais nobres
causas. Sua elegância tornava o
funeral um tanto quanto sinistro; sua companheira de sempre – a solidão –
estava lá, ao lado de um cão em silêncio, contemplando uma nova perspectiva
sobre a alma do féretro –; montavam guarda como negros corvos. Havia uma
mensagem implícita de que não gostaria de morrer com terrores suplementares,
mas tranquilamente, numa espécie de sono sereno. Parafraseando o escritor
inglês Joseph Conrad, certa aptidão para a morte não é coisa tão rara, mas o
que é raro é encontrar homens cujo coração, revestido de uma impenetrável
armadura, esteja pronto para conduzir até o fim uma batalha perdida. Só os que
lutam contra forças brutais conhecem bem esse desejo; homens que entram na história
pela porta da frente, enfrentando as cegas potências da natureza ou a
brutalidade estúpida das multidões. A alusão despertada por essa imagem, recortada de
Conrad, nos faz pensar tão mais na importância das referências dos grandes
artistas por recuperarem do esquecimento
àquilo que em prece sepultada, traz do passado o seu longínquo espírito
multifacetado, ensejado da poesia que foi capaz de conceber, traduzido nos
atentos gestos os acenos da saudade – ou, como diz Adorno em seu ensaio Sobre a cena final do Fausto: “Esperança
não é a lembrança fixada, mas sim o retorno do esquecido”.
Boletim Informativo do Núcleo de Estudos Foucaultiano. Ano 11 – Nº 0009. Março/ 2023 – São Raimundo Nonato/PI.
domingo, 28 de outubro de 2018
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
A Casa das Sete Luas
Gênesis Naum de Farias

Nas Ruas
do Velho Centro Comercial, por estes dias passeia a doce Salete, travestida
no seu fino xaile, doado por um
cliente caridoso, que amante da noite, tecia seu véu de ternura em galanteios
eloqüentes e muito decote. Porém, na rua, os últimos ruídos da noite, cada vez
mais distantes, armavam sua teia de ternura pelo tempo com a profusão dos
espíritos de uma rebeldia romântica e muito desnuda, ao febril e evasivo
tormento dos seus palácios.
Era aquela travesti do antigo cabaré Tombadim
do Mariano, bêbada e velha a
lembrar saudosa, seus belos dias nas épocas dos tempos, vaidosa que era no
romantismo das lembranças e das saudosas noites do sertão ribeirinho. Era ela,
bela e agradável a vista, tal qual um belo anjo estampado no frontispício de um
velho altar de igreja sorumbática.
Naquele bordel, mais conhecido como o Recreio da Lua Branca ou A
Casa das Sete Luas, um dia cantou noitadas, viveu feliz e amou a vida como
o último instante de sua jovialidade, mas entrou para a história, com os seus
sofrimentos, porque amou um nobre, falido; uma espécie de dândi contumaz, bem
generoso, que viajava sempre daqui pra li, sem cultivar da crítica citadina,
certa estima, por isso sofreu os dissabores nos dias de frio e solidão.
Seu jeito calmo contagiava a boemia da cidade dos impossíveis e imperava sua majestade por onde
passava. Era a sonhadora de um viver triste, mas sempre feliz em sua pequena
timidez, preferia o beijo esperado por muito tempo, porque lhe saciava a alma e
fazia-se valorizar no grande momento da ausente volúpia; de róseas face, de
dourada tez e olhos de ressaca, negros e embaçados que, com sua pureza, diziam
tudo e não dizia nada, mesmo sabendo que por onde passasse, sua linguagem e seu
cheiro, sofria a censura dos olhares provincianos do povo desta terra, mas
redimida e embelezada, oferecia-se em contemplações de abandono e má fé pelos
que de longe sussurravam seu velho e bom passado.
Sua sensualidade poética idealizou-se nas mesas da luxúria,
num parto imaginário, sem rumo nem reverso, transcrevendo a forma mais
alegórica do cotidiano de uma velha prostituta, do largo mais famoso e badalado
da Passagem de Joazeiro,
com suas amigas voluptuosas e seus deslumbrados fregueses, sejam eles poetas ou
homens ricos e donos do poder político. Na sua morada de perdição e sossego, o
pecado parecia não existir, pois seu cheiro, sua classe e o seu glamour povoavam o sonho febril dos donatários
destas terras e seus comércios. Ela era uma messalina, e o impressionante é
como os homens apreciam essa gente.
O lugar era povoado de muita sutileza, sabendo que além de
mulheres voluptuosas, seu largo recebia diariamente homens cultos, políticos e
toda uma gama de santos envolvidos pelo ar do mistério e anonimato ali presente
como ingredientes para boa conversa, traições, prevaricações e festas noturnas.
Entretanto, apesar do glamour,
aquelas mulheres representavam a verdadeira mazela produzida pelo progresso da
sociedade, com seus preconceitos entranhados no recalque social. No entanto,
aquele reduto boêmio abrigava metáforas vivas, pois retratava o pacto social,
envelhecido nas insanas hostilidades da época.
A Casa das Sete Luas retratava todo o abandono sofrido
pelas funcionárias voluptuosas e suas personagens clássicas advindas dos
palácios de antigas cidades portuárias. Salete, órfão de pai e filha da
cidadezinha mineira Santana dos Ferros, se perdeu de amor por um boêmio, desses
da chamada geração perdida, que intrigava a todos com o seu excesso de pudor ao
quebrar barreiras se apaixonar por aquelas musas a desnudar. A mesma chegou a
receber presentes de homens ricos e até propostas de casamento, mas dizia que
seu lugar era no Tombadim, porque figurava o insaciável desejo pelo prazer e a
boa vida oferecida pelos moradores bem dignos desta província.
A própria Salete dizia que era uma figura carregada de
significados simbólicos, devido à sua beleza, mas sabia que era amaldiçoada
pelas famílias puritanas, porém amada noite adentro pelos grandes donatários
destas cercanias, madrugadores em busca de prazeres nas camaradagens das noites
do Tombadim. Hoje Salete definitivamente assombra, assusta e se deslumbra com a
sua memória, pois troca encantos relembrando sua jovial e temperada época de
cabaré em cabaré, a dançar despudoradamente no seu deleite desvelado e
antipuritano; a sonhar, no seu portar magistral de pobrezas simples, em
fragmentados lençóis, com os amores turvos de sua mocidade, com o ouvido atento
aos boleros e as marchas de carnaval em lânguidos e dolências de desencontros,
escondidos na humildade e revelado na timidez de cenas quase cinematográficas,
através do mundo áspero e cruel do destino.
Sua vida marginal e apaixonada marca o tempo no rebento de
sua máscara, pois disfarçada de mulher no espaço das luas brancas e dos amores
distantes, passeia pelas ruas do nosso tempo como uma mulher bêbada e sofrida,
mas saúda o seu tempo na casa dos afetos, como o ponto fixo de sua existência,
que um dia sonhou violar com sua infância estelar no lugar mais mágico de sua
mocidade, impressos na sua
alma como o ponto cardial que nunca mais poderá voltar.
_____________.
FARIAS, Gênesis Naum de. Lavoura de Insônias. – São Paulo: Scortecci, 2015. p. 170-172.
domingo, 22 de junho de 2014
Lançamento do Romance do Poeta
O mergulho no mundo das ideias de uma outra época dá o
tom para a busca pelo equilíbrio e comunhão nesta primeira ficção romanesca, e
quase sempre depende de frases não ditas e perguntas não feitas ao passado. Por Gênesis Naum de Farias.
A discussão deste romance histórico, que é por
si mesmo um ensaio crítico, assume o compromisso
de refletir as
questões que interessam às mudanças cruciais ocorridas no Brasil Colonial
quando do advento da Inconfidência Mineira, quando um velho frade da Vila Rica Colonial retorna do passado sombrio, nas
masmorras da Fortaleza Ilha de São José das Cobras no Rio de Janeiro, para
relatar o que viu e experenciou com o terrível processo das Devassas. Um homem
que encontrou a liberdade no lugar mais improvável de sua alma: no nobre ato de
querer confessar-se com os homens. O livro relata o seu envolvimento no motim
que deflagrou numa considerável resolução sobre o conflito político entre a
Conjura Mineira e a Corte Portuguesa nos idos de 1789, bem como ao modo como se
aplicou a causa. E com certa confiança em demasia, relata seus feitos nas
tramas da História, atravessando outros riachos numa epopéia de sofrimentos,
eternamente recortada por tempos sonoros, onde a liberdade quase que tardia
norteava sonhos tão antigos quanto o vasto solo brasileiro... A personagem
principal se coloca neste tumultuado devaneio por ter rompido o recato, honrado
e delicado, ao expor em público seus erros e suas misérias, angústias e
desilusões, forçando-se a rasgar o véu de decência que o tempo cuidará de
cicatrizar, sem a pressa de uma certeza rápida para o desenrolar dos
acontecimentos tardios. A personagem expõe também suas fragilidades de modo
singelo e cru, pondo-se diante do indulgente cenário desta terra sitiada pelo
dramático, mas visceral acontecimento. É bem sabido que o mês de outubro de
1788 foi o mês em que culminou o processo de levante pela libertação das terras
brasileiras nas Minas Gerais. Tempos
depois, as lembranças da personagem no enredo seriam resguardadas à total
indolência e ao desespero odioso de uma ansiedade provida pelo que foi pensado
e executado, e pelo que foi desfeito a contragosto de todos com períodos de
total indefinição e alheamento, pois muitos dos seus companheiros de ideais
passaram por excussões desumanas ou períodos de extradição lamentáveis não só
corpóreas, mas espirituais, revelando a simplicidade e devoção de uma vida
caótica e pobre. Muitos foram torturados, outros trucidados e, outros tantos
que faziam parte do clero constituído, foram relegados a uma pena não publicada
nos anais da referendagem popular, mas como a historiografia documentou,
sofreram na pele a dor de serem punidos – como os desviantes no Inferno – com
sinais de indignidade e impiedade recorrente do ódio demoníaco dos poderosos
representantes dos monarcas, quando, indefesos, foram renegados, como os anjos
traidores, e confinados em masmorras fétidas e claustrofóbicas – como foi o
caso destas personagens – sem o mínimo balbuciar de vozes errantes (tão
reconfortantes nesses momentos) fora das prisões. Tudo isso por terem sonhado
com a libertação dos homens cativos em prol de uma civilização igualitária e
por ter planejado e conspirado para tornar independente o povo brasileiro. O
Abolicionista Joaquim Nabuco sentenciaria: “(...)
As lendas hão de sempre viver, como raios de luz na treva amontoada do passado,
mas a beleza delas não está em sua verdade, que é sempre pequena; está no
esforço que a humanidade faz para assim reter alguns episódios de uma vida tão
extensa que para abrangê-la não há memória possível...”.
No Evento acontecerá:
Conferência: Entre Simbologia e Imaginário: Construção e
Desconstrução dos Mitos na História do Brasil Republicano.
José de Arimatéa
Vitoriano de Oliveira
Professor Mestre em
História/UESPI/UFC
Local: Pátio Central da UESPI
Dia: 03 de Setembro de 2014 (Quarta-Feira)
Horário: 20:00 horas
Entrada Franca: Será fornecido certificado
Universidade Estadual do Piauí – UESPI/Campus Ariston Dias de
Lima/Rua Antônio de Carvalho, s/n – Centro, São Raimundo Nonato (PI) - Brasil -
64770-000 - Telefone: (89) 3582-1312 e-mail: nucleofoucaultiano@gmail.com - Imprensa Foucaultiana®
quarta-feira, 26 de março de 2014
Núcleo de Estudos Foucaultiano
Os Ímpetos de Um Esteta Solitário
Núcleo de
Estudos Foucaultiano © Gênesis Naum
de Farias
- Professor da Universidade
Estadual do Piauí – UESPI.
São Raimundo
Nonato/PI/Brasil.
Os últimos
anos de vida do pintor italiano Amedeo Modigliani (1884-1920) retratam o que
sua própria sina documentou em seus feitos gloriosos: era um tormento vigiado
de perto pelas frias noites de desilusões e glórias. Talvez retratassem seu
estilo puro e paciente ao ver as coisas na elegância de um tempo sofrivelmente
cansado de aparências e vanguardas ciumentas. Ao tempo de uma existência, como
poderia se definir para despersonificar a essência dos contrastes que o
envolvia nas incertezas do seu nítido silêncio? Primeiro, seria preciso dizer
que era um homem do mundo, habitado por muitos lugares e composto por uma
simbologia frenética, permeada de muitos desencontros. O existir nesse caso, já
efetivava configurações de certa melancolia, com oscilações de temperamento que
tendia a lembrar a nebulosidade criada pelas marcas do fracasso. Em tudo
absorvia o herói ultra-romântico; na forma, nas ideias, nos hábitos, nas
singularidades; em tudo marcado por um profundo mal-estar, que o consumirá por
um tédio incurável.
Em sua obra a
preocupação estética vai muito além de uma pretensa necessidade de
representação, pelo contrário, empenhava-se em captar não meramente a
aparência, mas a personalidade de seus modelos. A franqueza era uma competência
a mais quando a sua nítida capacidade de alcançar a alma de quem o retratava,
transmitia muito do que realmente sentia ao descrever a essência do que
pintava, captando através da luminosidade opaca, o onírico de um simples olhar
que se abria como janelas da alma. Ao perceber isto, Modigliani traçava seu
rumo nas artes daquele tempo, frente aos tormentos íntimos de um vazio
fantasmagórico.
Nesta busca
pelo absoluto e fugindo sempre das convenções sociais para preencher sua
necessidade de silêncio, torna-se tudo e nada ao mesmo tempo. No entanto,
enfrentou com vivacidade o cotidiano por combinar
ações e trejeitos de um dândi na
Paris urbanizada, ao tempo em que buscava para si a ternura de um humilde eremita
a procura da irretocável sublimidade nos gestos mais sinceros.
Morto aos 35
anos, Modigliani foi maior que a sua própria obra. Na verdade, seu nome é
lembrado na história da arte contemporânea como um feito trágico na desordem monótona
de uma época recheada de grandes vultos, onde o improviso não cabia nem era
aceito como padrão, isto porque num século de grandes ideias, suas ações eram
movidas pela capacidade de viver na intensa sintonia de uma lida cheia de
presságios e atribulações. Como suas figuras de olhar vazios, o artista proclamou
sua marca numa época atormentada. Tendo sido na realidade composto por
referências que davam sentido ao que procurava, se propôs na busca pelo
absoluto de tudo: de romanesco a anarquista, tudo o encerrava num ermo de
incompreensões, diante do verniz aristocrático, pueril e provinciano da lógica
daquele mundo indiferente a si. Mas a apatia e o sentimento de vazio só
fortaleciam sua própria interioridade, visto que era um homem de vida interior
muito intensa, que criava uma relação com as memórias para afugentar a morbidez
niilista do desalento.
Embora viesse
de uma pequena cidade da Itália chamada Livorno, logo se lançou na vida boêmia
da Paris do começo do século XX, onde as aparências escondiam o apogeu elegante
da decadência que se anunciaria com as guerras subseqüentes. Neste universo,
saboreou o triunfo e muitas quedas numa vida que nem sempre fora regulada e, mesmo
inquieto com os rumos do mercado, sua obra despontava entre os grandes de sua
época porque já nascera grande, como o próprio autor de velhas façanhas e
peripécias, vivendo na penúria. Ao se lançar na boemia daqueles dias, traduziu
o que de melhor podia se pronunciar como arte moderna.
Em 1920, após
duas décadas lutando contra a tuberculose, enfrentou uma complicação fatal de
meningite que o levaria a óbito, vivendo precariamente e alimentando-se de
forma desordenada. A ousadia deste artista, de família judia que estudou arte clássica e que desbravou a Pátria das Letras, legou importantes documentos para a
contextualização da arte naquele início de século. O tratamento de sua atuação
poderia sugerir muitos e diversos desdobramentos para o tempo que se estabelecia
como uma era que se anunciaria precária, retocada de poucas tecnologias, porém determinaria
o artista que se projetava naquele período.
A
incompreensão àquele tipo de sociedade, já se propondo pelos ditames do
consumo, tende a lhe isolar num mundo imaginário que poderia ser classificado
como burlesco, por optar por viagens ermas, frente interiorização de si no
abandono de quase tudo. O verniz aristocrático do homem moderno, mesmo com
certo exagero de sua parte, marcará época ao fazer a exaltação da
individualidade como meta para acorrentar os indivíduos pelas normas do
espírito singular do “ter”, os quais valorizam o bom senso uniforme da exclusão
social pela necessidade de se discutir um padrão e uma verdade mecanicista nas
relações sociais, num universo de poucas opções.
A valorização
de sua obra alcançou um processo espantoso após sua morte. Era conhecido como “Maudit” que em francês, discorre sobre
sua personalidade no Pantèon dos
amaldiçoados, de modo mais incisivo, visto que seus trejeitos conceituavam um
estilo de vida que ia muito além da mera formalidade. Na verdade, Modigliani
não se enquadrava na pluralidade de tendências que aplacavam os movimentos
reinantes no mundo daquelas artes. Estava fora do lugar comum e isto fazia de
sua personalidade o figurativo irreconhecível no panorama daquele tempo, no
entanto suas marcas ponderaram o que de melhor se produziu com o misto da
independência. Sua vida galante e boêmia refletia a vivência dos melhores e dos
piores prazeres adquiridos na sobrevida, martirizando-o pela fragilidade de sua
saúde, legada pelo consumo exagerado de haxixe e outras drogas como láudano, absinto
e vinho nas noitadas de uma época apaixonante que o acompanhariam por longos
dias. Seu espírito mundano, definida
pela ousadia de sua personalidade, desafiava sua precocidade no trajeto de sua
estada naquela Paris e, mesmo em face do seu percurso, definido exclusivamente
pela linha austera do seu traço, tinha o diferencial que o exaltava diante das
injúrias que a sorte o legou nas agruras da sina que o mataria, assim como
matou a Dama das Camélias...
No exposto há
sempre uma concepção fatalista para os resultados desse projeto de vida naquela
sociedade, pois seus desejos de não se artificializar no contexto da
personificação de um modelo “enquadrado” inverte o diálogo com a realidade para
torna-lá trágico e de difícil acesso. Enfim, aquele Poeta Maldito era dado a
Odes, Opúsculos e Exílios, se reservando as paixões mais íntimas que
corroboraram para um enfrentamento contundente junto aos contrastes de
sentimentos que o vazio desolador proporcionava ao homem no seu intenso
convívio naqueles dias de guerras.
Não é difícil,
contudo, imaginar aonde esse artista fecundo chegaria. Embora seus maiores
interesses se projetassem como os traços de suas esculturas, com pescoços alongados,
numa nítida influência das estátuas egípcias, nas quais o corpo se verticaliza
como um pedestal, Modigliani desde sempre trilhou um caminho que naturalmente o
levaria ao Impressionismo, porém sua vertente metafísica fazia alusões nítidas
de que em poucas horas seu traço retornaria, com força impactante, aos elos de
sua formação cabalística, indo além dos retoques mais exóticos para se afirmar
como um artista de transcendência. Este diálogo trágico com seu eu subjetivo, deverá ainda encontrar
forte eco nas ações afetivas que o ligavam à literatura, por acreditar que
desta forma chegava o mais próximo do eu
que procurava na interioridade que lhe coube sentir no vazio humano, como
matéria para a poesia que respirou e inspirou.
Nesta época
descobre as belezas negras do continente africano e depõe suas máscaras para
invernar pelos caminhos fascinantes das influências mitológicas da linguagem
escultórica. Seus biógrafos reconhecem nesse momento o principio de uma descoberta
fascinante que o despertaria para o que se tornaria evidente em sua obra: a
realização dos próprios trajetos rumo ao sonho de uma realização não alcançada
em vida.
Ao tempo de
uma existência, como essa personagem das artes mais sinceras poderia se definir
para despersonificar a essência dos contrastes que envolviam as incertezas do
seu nítido silêncio? Primeiro, seria preciso dizer que habitou o mundo com a
sensibilidade de um deus ao identificar nos lugares de memória a grandeza de
servir, amar e ampliar tudo ao redor de quem o circundava. Era na verdade um
homem do mundo. Eis o que os tempos do mundo deveras ter lhe dito: somos no
espírito deste tempo, Estátuas de Mármore. Ele
poderia ter reivindicado para seus muitos eus
a máxima de Terêncio (185 – 159
aC ) adotada integralmente pelo pensador Karl Marx: “Sou
humano: nada do que é humano reputo alheio a mim”.
Não será
surpreendente encontrar neste pequeno Inventário
de palavras, transcritas em forma de poesia, o Modigliani de outras épocas. São
poemas que retratam o embate intelectual deste com os muitos apaixonados encontrados
nos cafés de Montmartre daqueles dias. Neste bairro boêmio francês, palco dos
muitos encontros entre jovens pintores renascidos da influência de Van Gogh,
Cézanne, Guaguin e Toulouse-Lautrec, um dia um jovem judeu sonhou viver a
intensa alegria de um encanto sem pressa. Mais tarde as imagens dessa vida
errante, retratada tão esplendidamente por Toulouse-Lautrec, seria motivo para
tão faustuosa tragédia, vivida provavelmente pelo talentoso e autêntico
Modigliani, auspiciosamente aclamado pela forma que se revelaria pronto,
especialmente por meio do olhar vazio e languido deposto em seus retratos,
parecendo mover o artista em direção à sua empreitada por uma linguagem própria
encarnada naquilo que Charles Baudelaire docemente chamava de vida moderna. A
sentença deste nortearia a sina fascinante do outro: “Por sorte, surge de tempos em tempos quem coloque as coisas no devido
lugar: críticos, amantes da arte, espíritos inquisitivos...”.
Nisto, era
possível pensar como as pessoas o viam naquele universo de conflitos e poucas atribuições?
Então, parei para imaginar que ele talvez fosse um homem que fazia o que dizia
e dizia o que fazia. As gentes daquele mundo externas a ele poderiam concordar
ou não com as suas ações, discursos e pensamentos, que foram sendo
desenvolvidos ao longo de sua vida, mas uma coisa era certa, eles eram
absoltamente fiéis e coerentes ao que acreditava como entendimento de uma
dignidade.
Essa
experiência, em particular, pode nos dizer muito sobre a intensidade poética
encontrada nos versos soltos desta obra que tenta falar de um Modigliani para
além dos seus propósitos, revelando o fascínio com que sua breve e tórrida
existência causava a qualquer vivente ao se deparar com a linguagem simbólica,
encarnada neste grandioso pintor que um dia tentou idealizar sua arte, com
arranjos poéticos, ao descrever o pouco que sentia ao ser apresentado ao mundo
como idealista, ao tentar redesenhar seus traços em iluminuras e abstrações que
flertavam sob o olhar impetuoso e simplificativo do feminino, privilegiando o
conteúdo nostálgico do olhar vazio, que um dia transporia luz!
O exemplo
exposto mostra que as experiências de aprendizagens pela alteridade de um
artista ou num artista consistem em várias formas de conceber a própria
pluralidade, quando na diversidade, outros olhares podem definir a mesma
contemporaneidade. Olhar o mundo a partir de muitas e diferentes formas
privilegia o homem para viver a ânsia de todas as suas descobertas, passando
pelas explicações conceituais até adentrar na lógica do pertencimento, onde se
vive em vários mundos numa única vida.
No consenso de
todos os acontecimentos trágicos daquele tempo, Modigliani permanece sendo um
ideal fantástico, um ideal da mocidade, entre tantos seres reais e abstratos,
onde a arte nem sequer permanece convencional, mas ao menos, este personagem
vai além do mero romance... É como um espírito... Que resiste a sua própria
precariedade. Sua loucura foi desafiar os mistérios que soube cultivar, podendo
com todo o fracasso que vivenciou, apresentar-se ele mesmo como um verdadeiro
exemplo do misterioso processo da arte, que tudo sabe cultuar na sublime nota
de uma realidade decadente...
Imprensa Foucaultiana®
domingo, 15 de setembro de 2013
Nùcleo de Estudos Foucaultiano
O Doente
Imaginário
Núcleo de
Estudos Foucaultiano © Gênesis Naum
de Farias
Poeta
Bruxulesco®
- Professor da Universidade Estadual do Piauí.
São Raimundo
Nonato/PI/Brasil.
Eu desisto!
Assumo no instante presente que sou o que nunca consegui ser. Fui mesmo a vida
inteira um sonhador de palavras velhas que cansadas, pretendem parar de
soletrar murmúrios tardios e, mesmo em face dos amores que vivi, sinto estar
velho para amar outra vez. O amor é mesmo um luxo caro, já dizia um Poeta
Português. Mas o amor é encantador e por isso se ama por assim dizer e ter o
que falar. É doce sentir nas palavras que o ato de amar é incontestavelmente
singular. Só ama quem produz sentido, fazendo as palavras decantarem prantos,
dramas, solfejarem notas sempre insurretas e prematuramente, sofrer na
intensidade do desencanto. Amar é isso, é fingir que dói, quando se corroer por
dentro, é o mesmo que fingir que não dói não atingir as primícias do ato de
amar.
Amar nem
sempre é bom, mas nos torna grandes, quando ainda somos bem pequenos para
parolar sobre coisas divinas que nem sempre podemos alcançar. Quando se ama se
ama. Quando se perde um grande amor, se perde de vez e se perde os rumos do
norte nas canções do mar, quando em noites de lua, o seu marolar é mais intenso
que as ondas do ar. O amor é fogo. Encerra-nos por dentro e nos faz destoar em
pensamentos tardios, deixando-nos sem sono, sem fome, sem desejos pretensamente
materiais, sem a pressa cotidiana, sem a temperança do amanhecer e,
nostalgicamente, nos encanta. O encantamento das palavras quando afirmadas com
sinceridade nos faz crer que somos maiores do que tudo. Ele nos transporta no
imaginário de alguém, fazendo lembranças se tornar saudades redentoras e, são tão
complexas as causas que levam um indivíduo a amar, que ele nem mesmo sabe por
que ama sem o contentamento do instante.
Quando se ama
alguém no instante antigo do desapego, tudo se faz conspiração, mas os rumores
tardios, sem retoques, ampliam o acaso dos registros mais sinceros. É como ver
o tempo nos adormecer com a ternura de uma criança e nem sentir as horas que
passam sem a misericórdia do controle. O relógio do tempo é mesmo o infame que
nos atordoa quando queremos sofrer ao dizer ao outro quem o ama. É um segredo
revelado, porém maculado e impoluto que atinge a grandeza redentora da verdade.
Já não se têm amantes como outrora, que mesmo em face de qualquer
descontentamento, falam do amor como asas de mistério.
Na verdade, a
realidade é tão severa com quem ama, que dizer o que sente, já se tornou tão
banal e impróprio, que ser verdadeiro com as palavras torna-se doloroso e
penoso, pois verdades que nascem mortas, não servem para serem ditas. O amor
nestes casos torna-se revelador a ponto de nos perguntarmos por que escrevemos
ou porque sofremos pela verdade não dita. O triste disso é que a humanidade se
tornou enferma de si própria sem entender a ética do cuidado de si. Mas o dia
nasce para quem ama e os primeiros dias da primavera já nascem velhos e
sorumbáticos, como se nem fosse a estação dos primeiros encontros, dos
primeiros projetos, dos primeiros sonhos, dos primeiros olhares, das primeiras
enamoradas e, porque não dos primeiros arroubos.
Quando a
humanidade reaprender a amar, os dias se tornaram mais longos, as horas mais
descompassadas e os passos mais lentos. O difícil é fazer esta mesma humanidade
se reencontrar na amável doçura de uma certeza jeitosa, já que sem muitos
sonhos e sem muitas aspirações, caminhamos para o mesmo desfecho, sonolentos
como almas tristes que não encontram paz nas coisas mais simples. Mas quem sabe
minhas infindas desistências não são prematuras porque também nunca soube amar
da forma que o concebo nos meus devaneios poéticos. Tem horas que pensamos em
desistir de tudo, inclusive dos raios do sol que iluminam o dia. É quando
deveremos pensar que certas incertezas servem para nos fortalecer diante das
adversidades, isto porque nem sempre somos tão capazes de falarmos de nossas
próprias fragilidades; mesmo aquelas mais recalcadas. O recalque que nos
orienta é intolerável e deve ser pensado assim.
A vida tem se
tornado intolerável porque nunca conseguimos interpretar o que deveras ser
conjugado com sinceridade, mas quando escrito, torna-se documento. Talvez se o
ato de amar alguém fosse interpretado com mais pureza, as incertezas históricas
do ser humano pudessem se tornar mais explicativas. Nos velhos casarões da
memória, tudo afirma uma sensação triste, porque tudo passa, inclusive a
certeza de quem somos ou de quem amamos. Um dia escrevemos o nome de alguém em
nosso coração e outro dia simplesmente o tiramos daquele lugar sagrado, cheio
de verdades. O que não passa é a certeza de que as mais profundas horas
atordoam qualquer vivente no eito dos passos lentos, nos decênios de uma cidade
morta. Quando descrevemos o amor em tempos de cólera é para documentar que ele
nos imprime verdades nem sempre sinceras, afinal, somos o que somos porque
sempre fazemos escolhas impróprias que de forma nem sempre elegante, ressoa em
ruas despedaçadas. Mas amar é sempre bonito. Tanto para quem ama, quanto para
quem é amado e, por isso suas asas de mistério são enormes e quase nunca é
percebida por quem não sabe o que é o amor. Dorival Caymmi já cantava, “Você não sabe amar meu bem, não sabe o
que é o amor, nunca sofreu e quer saber mais que eu...”.
Eu sempre
acumulo muitas perdas porque minhas paridades são sempre intensas. Costumo
sempre dizer que nos meus romances de angústia, as fatalidades são sinceras e
desencontradas no isolado som da tristeza, sob a sombra distinta da partida. Vivo
de dilemas infernais a espera do conforto da palavra, na
toada das dores de um passado que o esteio esvoaçava no recinto dos
sonhos, e sob a visão de castelos demolidos, me reconheço sem a altivez dos
profetas que a esmo se perdeu nos termos da euforia. E que o decrepitar da
timidez me consome, em clamores, vive imerso minhas fantasias e de nostalgias,
vivo preso à agonia...
Mas se assim
sou, como posso ao tempo de uma existência, me definir para despersonificar a
essência dos contrastes que envolvem as incertezas do meu nítido silêncio de
Poeta? Primeiro, seria preciso dizer que sou um homem do mundo, habitado por
muitos lugares e composto por uma simbologia contida de desencontros. Eis o que
o tempo sempre me diz: sou no espírito deste tempo,
uma Esfinge de Mármore. Eu poderia reivindicar para os meus eus a máxima de Terêncio (185 – 159 aC ) adotada
integralmente pelo pensador Karl Marx: “Sou humano: nada do que é humano reputo
alheio a mim”.
Agora,
desistindo de tudo, inclusive e mim mesmo, me ponho a pensar como um doente
imaginário que busca para si a extraordinária certeza da razão de que desistir
de amar é como desistir de viver, e faço das palavras de Augusto Renoir as minhas, quando
descreveu o mais belo amigo, Amadeu Modigliani, a dançar na chuva feito uma
criança insone que de louco tinha apenas um pouco de lucidez: “(...) Eu o vi dançar uma vez, perto da
estátua de Balzac. Seu rosto estava bonito, seus passos graciosos...
Pavoneado-se com a música, ele sorria... Ele foi tudo o que eu já fora. Roubei
aquele momento e guardei-o na memória... Para estar lá e me confortar nos meus
dias finais”.
Imprensa Foucaultiana®
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Núcleo de Estudos Foucaultiano
IX Encontro de
Professores Pesquisadores Sobre Educação na Contemporaneidade
UESPI\Núcleo de Estudos Foucaultiano\Seleção de Imagens\Conferência do Professor Gênesis Naum de Farias.
Acontecerá no Campus da UESPI - São Raimundo Nonato
Eixo Central do Evento: Interdisciplinaridades Foucaultianas: Uma Trajetória pelas Ciências da Subjetividade.
Acontecerá no Campus da UESPI - São Raimundo Nonato
Eixo Central do Evento: Interdisciplinaridades Foucaultianas: Uma Trajetória pelas Ciências da Subjetividade.
Está acontecendo desde o dia 14 de Agosto o IX Encontro de Professores Pesquisadores Sobre Educação na Contemporaneidade no Campus Ariston Dias Lima, organizado pelo Núcleo de Estudos Foucaultiano; evento que já entrou para o calendário oficial da Universidade Estadual do Piauí por congregar pesquisadores e educadores que através da Extensão Universitária queiram falar de suas pesquisas e de suas metodologias de ensino com pesquisa. O referido evento está em pleno desenvolvimento e transcorrerá até o dia 28 de Setembro, onde uma empreitada de Pesquisadores e Professores da Pós-Graduação da Universidade Estadual da Bahia – UNEB, que tem um Campus no Município de Juazeiro da Bahia, prestigiará o Campus Ariston Dias Lima com uma visita de campo e concluirá sua atividades com uma Conferencia proferida pela Prof.ª Dr.ª Luzineide Dourado Carvalho que fará uma conferência sobre o Panorama da Educação Contextualizada no Brasil, fechando assim com chave de ouro o Encontro de Professores Pesquisadores.
O evento deste semestre trás como Eixo Central a temática As Interdisciplinaridades Foucaultianas: Uma Trajetória Pelas Ciências da Subjetividade e conta com a experiência de diversos profissionais da área da pesquisa educacional, bem como de profissionais desta e de outras regiões, que de forma comprometida trazem suas observações para a trajetória da pesquisa e do debate no âmbito desta Universidade.
Sobre O Núcleo de Estudos Foucaultiano
Sobre O Núcleo de Estudos Foucaultiano
O Núcleo de Estudos Foucaultiano é um Projeto de Extensão desenvolvido como Pesquisa Aplicada e tem por objetivo fundante a compreensão da obra do filósofo Michel Foucault com vistas ao aprimoramento do espaço do debate na Universidade, tendo como referencial os pressupostos teóricos empreendidos pelo contexto que envolve os processos de desterritorialização em sua dinâmica de pluralidade junto à pesquisa educacional e a formação dos estudantes das Licenciaturas nos Campi da Universidade Estadual do Piauí – UESPI, de modo a entender e fortalecer as estratégias de ensino-aprendizagem com vistas a uma melhor compreensão dos sentidos da Educação na Contemporaneidade.
O Professor Gênesis Naum de Farias ressalta ainda a importância do evento para a micro-região, já que o fomento por novas abordagens sobre o fazer da pesquisa em sala de aula ou a pesquisa nas escolas é um requisito que atende aos novos rumos que a escola do século XXI exigirá para que de fato se tenha um espaço escolar pontuado pela qualidade do ensino multidisciplinar. O mesmo reforça: “A escola que queremos está longe de alcançarmos, mas a que pretendemos criar ou reelaborar pode se consolidar com praticas inovadoras e com compromisso profissional, trabalho em equipe e vontade política”.
O evento contará ainda com o lançamento de dois livros, um do próprio Gênesis Naum de Farias e um segundo lançamento do Professor Dr.José Carlos Aragão da Universidade Federal do Maranhão – UFMA, que vem a público dividir sua proficiência doutoral com um trabalho inédito sobre a sociologia do presente, isto, para entender os nortes de uma geografia que em si, pretende ressignificar alguns conceitos sobre o fazer da pesquisa no Sudeste do Estado do Piauí.
O Professor Naum de Farias ressalta ainda a importância do evento quando transfere para a Universidade o bastião deste empreendimento: “É de suma importância ajudar uma Região inteira no empreendimento de formar para atuar nas escolas e, este é o papel da Universidade Estadual, pois além de organizar eventos como este, forma cidadãos capacitados para atuarem no mundo, pois possui uma Educação humanística e de excelência, com troca de experiências mútua com outras instituições de ensino, a conviver com a diversidade. A UESPI educa jovens que partem para o mundo do trabalho com bagagem de cidadania e cultura. Venha estudar com a gente! A nossa missão é educar! Além do mais o acompanhamento acadêmico é permanente, sem contar que possuímos um corpo docente qualificado, com professores pesquisadores que atuam com formação de ponta com responsabilidade social. Somos uma Universidade que possui atividades culturais e artísticas, fazendo um intercambio com universidades parceiras. Por tudo isto, acredito que temos ainda muito por fazer, mas o desafio é para ser vencido”. Conclui o Professor Gênesis Naum de Farias.
Público Alvo: Educadores, Estudantes, Sociedade Civil.
Responsável pelo Evento: Professor Gênesis Naum de
Farias
Núcleo de Estudos Foucaultiano - UESPI
Universidade Estadual do Piauí - UESPI
Educação humanística e de excelência,
troca de experiências, convívio com a diversidade. A UESPI educa jovens que
partem para o mundo do trabalho com bagagem de cidadania e cultura. Venha
estudar com a gente! A nossa missão é educar!
●Acompanhamento acadêmico
permanente ● Corpo docente qualificado ● Professores-pesquisadores ● Formação
de ponta com responsabilidade social ● Laboratórios e oficinas ● Atividades artísticas
e culturais ● Complexo poliesportivo ● Intercâmbio com universidades parceiras ●
Participação em projetos sociais e ambientais ● Biblioteca com mais de 5 mil
volumes.
Informações
89 3582-1312
COMPAREÇAM!!!!!!!
sexta-feira, 7 de junho de 2013
Professor
Gênesis Naum de Farias é Publicado na Revista da UNICAMP
E
ainda é Destaque em Encontro de Arte e Educadores em Oeiras (PI)
Aconteceu
na cidade de Oeiras (PI), Campus Professor Possidônio Queiroz entre os dias
24,25 e 26 de Maio o Encontro de Arte e Educação sobre os Novos Olhares Contemporâneos
no Contexto da Realidade Escolar. O referido evento contou com uma equipe
multidisciplinar para o quesito de organização, contando com professores do
Campus de Oeiras e São Raimundo Nonato, do qual o Professor Gênesis Naum de
Farias fez parte em comissão de organização. Além de atuar na organização,
proferiu uma conferencia que se intitulou A Educação e a Subjetividade no Contexto da
Indústria Cultural, ocorrida como mesa redonda na noite do sábado dia
25. Ao todo, ocorreram quatro (04) grandes Conferências e uma série de
comunicações, bem como a apresentação em forma de recital homenageando o Poeta
e Diplomata Vinicius de Morais, fechando o evento com a graça da poesia. O
evento esteve sob a responsabilidade da Professora Magda Soares que trabalha a
disciplina Arte e Educação no Colegiado de Pedagogia e o enfoque central do
debate pretendeu partilhar experiências culturais e educacionais, garantindo a
aproximação entre diferentes pesquisadores através de suas produções com
extensão universitária. No ensejo, fora apresentando o Documentário O Estado da Arte na Fuleragem de
autoria do Professor Naum em parceria com a Universidade Estadual da Bahia,
através do Departamento de Ciências Humanas – DCH III/ Juazeiro – Bahia.
No
ensejo, é bom lembrar a publicação recente do artigo do referido Professor
Gênesis Naum, pela Revista da UNICAMP, quando trouxe relevantes contribuições
teóricas e epistemológicas para o campo científico da Arqueologia. O artigo é
fruto de uma conferencia proferida na própria UNICAMP entre os dias 19/03 e
23/03 na I Semana de Arqueologia. A produção do artigo é parte do intenso
debate sobre o campo multidisciplinar do Currículo no contexto crítico e sua
produção se deve a uma pesquisa que tem como foco ampliar as demandas práticas
do trabalho acadêmico, quando o mesmo é norteado pelo referido documento
(Currículo) que regimenta os diversos eixos do ensino no âmbito da formação. O
autor fala sobre a publicação do artigo: “Caros Professores, gostaria de
dividir com todos vocês a publicação do ensaio crítico ‘O Ofício do Arqueólogo:
O Currículo em Tempos de Subjetividade e Crise’ pela Revista da UNICAMP fruto
de uma conferencia nesta Universidade em meados deste ano. É com grande
satisfação que comunico o lançamento dos Anais da I Semana De Arqueologia da
UNICAMP – ‘Arqueologia e Poder’, publicado como edição especial da Revista de
Arqueologia Pública (ISSN 2237-8294), publicação esta vinculada ao Laboratório
de Arqueologia Pública Paulo Duarte (LAP/NEPAM/UNICAMP). O acesso aos textos
que foram apresentados durante o evento, divididos em seções temáticas, pode
ser feito por meio do link:http:/www.nepam.unicamp.br/arqueologiapublica/
Agradeço
mais uma vez a todos e desejo uma ótima leitura a todos!

Núcleo de Estudos Foucaultiano © Gênesis Naum de Farias
Poeta Bruxulesco®
- Professor da Universidade Estadual do Piauí – UESPI.
São Raimundo Nonato/PI/Brasil.
Poeta Bruxulesco®
- Professor da Universidade Estadual do Piauí – UESPI.
São Raimundo Nonato/PI/Brasil.
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