segunda-feira, 14 de maio de 2012

Os Professores e a Atual Universidade Brasileira




Gênesis Naum de Farias/Poeta Bruxulesco e Professor
Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF.


Quando pensamos em Educação no Brasil logo somos transportados a legitima noção de que os saberes docente refletem a palavra-chave que norteou todo o pensamento do Educador Paulo Freire: Transformação. Para entender-la é preciso primeiro saber o que foi feito da formação dos educadores no período Pós–Ditadura Militar; que tipo de profissionais se formou quando a devassa do terror político abriu suas portas e arquivos para uma democracia tardia, quando os interesses já não eram transformar a nação nem consolidar nenhum estado de direito, mas ortogar a infração e a afirmação de que um país que nasce colonizado morre colonizado.

A Educação vai mal porque os educadores nascem doentes e são frutos de uma Universidade indolente, perseguidora, frustrada, carrasca, intolerante e quase totalmente improducente, onde pesquisa, ensino e extensão são na verdade um delírio utópico de poucos, comprometidos com outros processos; onde se excluem, cotidianamente, por falta de espaço em instâncias colegiadas, estudantes e professores comprometidos diante da autoridade doutoral da estabilidade profissional do funcionalismo público.

Que estabilidade é essa que se propaga como direito adquirido e não se projeta para consolidar os processos de ensino-apredizagem quando não há estabilidade emocional nem segurança para se trabalhar, estudar e vivenciar a Universidade perante a tirania doutrinal de positivistas que na era da Pós-modernidade, profissionais de quase todos os campos do saber se dobraram aos financiamentos das agencias de fomento de pesquisa? Estas por sua vez enquadram os saberes e atrela o domínio pela pesquisa a instituições sem autonomia política para fazer o enfrentamento necessário através da formação crítica nas salas de aula. Os interesses estão sempre na ordem do dia.

Já se passaram quarenta anos do fim da Ditadura Militar e nesta democracia tardia o que se tem a comemorar? O fim da neutralidade política com engajamento social e o surgimento de uma Educação serviu? A Educação que temos é indulgente, perversa e intolerante. Que processo formativo é esse que amarra os professores aos desmandos de instituições como a CAPES e tantas outras, que autorizam e desautorizam quando querem, doutrinariamente, os futuros pesquisadores, a se curvarem ao chamado terceiro setor, ao consumo e ao desejo de vigilância e punição quando sua autoridade doutoral refletir sua incompetência moral e institucional para fazer o trabalho docente gerir desenvolvimento.

A Universidade Brasileira vai resistir a todos esses desmandos porque o termo requer pensar-la como uma instituição formadora de conhecimento, mas seus professores não passam de formadores de mão de obra que de “capacitados” passam a ser reprodutores de um pensamento terceiro mundista, reféns da moral social de um tempo onde a democracia de democrática só possui o termo. O estado de direito na sua concepção institucional adverte que todo cidadão é portador de liberdade para ir e vir, porém esse direito lhe é negado quando apenas cidadãos comuns podem pagar seus impostos sem usufruir do capital simbólico que emana da relação desses direitos e deveres.

No momento em que pararmos para pensar a Educação como elo de transformação social venceremos o desanimo e daremos uma resposta mais bem pronta e mais elaborada aos problemas educacionais porque seremos revestidos de direitos e deveres não amplamente obedecidos nem regularmente cumpridos nesta Nação onde a Carta Magna impele liberdade, mas repele cidadania para todos.

O que dizer de educadores empossados no emprego público que não cumprem com seus deveres de cidadãos, que lutam apenas por salários e mais qualidade de vida, quando não cumprem seus deveres como profissionais nem cidadãos e que trocam a obediência pública pela subserviência privada? O que dizer de professores que recebem como dedicação exclusiva no setor público que não atendem a real finalidade de suas obrigações e recebem as benesses do setor privado quando deveriam estar produzindo conhecimento na esfera pública?

Falta mais fiscalização do Poder Público quando esses desmandos institucionais criam poderes paralelos entre as classes sociais para forjar discursos de qualidade educacional e institucional sem o ditame lógico do discurso público que autoriza o intelectual a pensar a sociedade e buscar transformá-la nos seus diversos tipos de atividades laborais. De quem é a culpa? Quem paga a conta? Quem salvará o povo brasileiro?

A Ditadura Militar destruiu os anseios de muitos dos grandes pensadores da Educação Brasileira tais como Florestan Fernandes, Paulo Freire, Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e tantos outros, para produzir seu próprio biótipo de intelectual tecnocrata. Apesar de políticas públicas como as Cotas Sociais e o Reuni terem sido pensadas para dar uma cara nova ao que se pode chamar de “reforma educacional” o profissional que hoje temos atuando e se formando nas universidades brasileiras atende apenas a uma lógica de mercado que contempla apenas os ranços tardios de nossa relação com a colônia e, como colonizados reproduzimos apenas o discurso do vencedor, sem o preparo crítico para ressignificar a luta por qualidade de vida e de trabalho.

Porém quem manda nos órgãos de fomento e de pesquisa são pessoas que formam opinião e  que nasceram nas docas da Ditadura e engendram políticas institucionais frias e sem nenhum alento social para ampliar o desenvolvimento crítico, porque o lance é ter acesso a espaços onde o financiamento fale mais alto podendo referendar toda a impotência de pesquisadores que escrevem apenas o que lhes mandam ou apenas aquilo que está na ordem dos acontecimentos e que reflita a episteme da moda, ou o axioma paradigmático que o jogo dominante determina a todos, sem a responsabilidade política com causas maiores. O negócio é rentável, usa-se o CNPJ das universidades públicas para o financiamento público de projetos que atendem a uma finalidade engrandecedora: formar cartéis acadêmicos e propagar o poder de quem manda a quem se submete a obedecer; ou seja, empresas privadas são criadas por entre os interesses da Universidade com um único objetivo, fraudar ou negligenciar os desmandos dos Senhores da Ciência Moderna.

Quando professores se determinam a uma paralisação que prenuncia uma greve, logo pensamos em atraso nas atividades escolares e acadêmicas, mas poderíamos perguntar a esta classe de funcionários públicos o que produzem na academias? O que se produz no ensino superior? O que se processa nas universidades se não saberes reproducentes e sem o valor que lhe é necessário quando transformar mentes passivas em indivíduos críticos não atende a um papel reformador e emancipador? 

A Universidade Brasileira esta em crise porque insiste em manter cartéis econômicos ligados a partidos políticos aparelhados por intelectuais desarticulados dos princípios básicos da Educação, que não sabem realmente o papel que tem diante dos fatos e dos acontecimentos. O resultado de acordos políticos desinteressados em questões maiores é que teremos num futuro bem próximo uma massa de manobra servindo a um sistema patronal sem se ater aos direitos que tem no amplo papel que exercem na sociedade civil. O escritor Heinrich Mann nos diria que “um mundo que não causa dor não incita à autodefesa. Palavras e frases também são autodefesa...”. O que dizer deste universo de coisas se não sabemos nominá-los nem criticá-los.

Portanto, é justo pensar a Universidade Brasileira como o local que interage com o global e intervém para mudar o rumo dos acontecimentos locais, porém não é justo pensá-la apenas como um órgão regulador de saberes e poderes; somos o que outrora Paulo Freire pensava: um bolsão de miséria que não consegue falar de suas próprias mediações, isto porque não conseguimos mediar nem nossas próprias relações profissionais com respeito, quando é dever de todo cidadão ter acesso aos bens simbólicos para poder gozar do livre pensamento para compreender as conseqüências tardias dos ditames que engendram politicamente suas vidas através do conhecimento.

Para se ter uma sobrevivência igual diante das relações que se criam pelos poderes paralelos dos formadores midiáticos da Educação é preciso parar para pensar politicamente num currículo proximal que atenda a questões reais deixando de lado questões periféricas e de anseios pessoais para referir-se ao que não é público nem pretende ser público.

Hoje se tem a idéia de que tudo se faz tarde para arquitetarmos outra revolução pela Educação, mas ao acordarmos para questões como a que se coloca neste instante como reflexão, o cidadão já está fazendo a sua parte para melhorar a cultura do que é público no mundo das polarizações e dos saberes dominados por doutores sem a autoridade doutoral. Lulu Santos nos adverte em certa canção: “(...) se amanhã não for nada disto caberá só a mim esquecer... Portanto, nos dizeres de Umberto Eco poderemos traçar outras reflexões para a própria cultura universitária, quando a mesma já não discute a realidade porque “(...) o caminho da ciência é difícil e é difícil distinguir nele o bem e o mal. E freqüentemente os sábios dos novos tempos são apenas anões em cima dos ombros de outros anões (...)”. (1986, p.111). Viva o alto grau de protecionismo do intelectual brasileiro!

sábado, 12 de maio de 2012

O Silêncio do Monge




Gênesis Naum de Farias/Poeta Bruxulesco e Professor
Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF.


O Budismo é uma filosofia de vida que está intimamente ligado aos problemas do dia-a-dia, por isso o caminho ascético fulgura uma presente nova vida ─; longe dos grandes debates e dos enfadonhos dilemas existênciais, o silêncio, a oração, o jejum e a meditação tornam suportáveis a realidade. Por isso, muitos destes homens de fé são autorizados pelo silêncio a se refugiarem na torre de si mesmos para fugirem da mediocridade torpe do mundo. No silêncio da meditação, trabalham o espírito numa tentativa de comunicação com o Cosmo buscando comunhão. O Cristianismo é outra forma de religiosidade que prega que quem caminha na vida não anda sozinho,  basta viver em comunhão. E comunhão é tudo.

Dizem os antigos que os místicos falam com Deus sem precisar de interceptores, chegando a ouvi-lo dentro de si. É importante frisar este fenômeno para demarcar a caminhada espiritual. Os confessos eremitas do deserto se prestam a um serviço solitário para a humanidade porque oram pela paz no mundo, no arduo caminho de suas atribulações. Como querem os velhos sábios, a vida é uma eterna descoberta de si e, já não há tendências filosóficas que não demarquem seus territórios na construção da vida que segue sua atribulada manutenção de sobrevivência. A mesma tem se mostrado clara quando seus descaminhos franqueiam interesses, compensações, depurações e incertezas.

Do exposto, fica a breve certeza de que a mudança interior tem que começar em cada ser humano. Ou seja, é preciso aprimorar-se por dentro para alcançar os resultados de que o mundo precisa. Dito isto, tudo fica mais explícito quando se pensa nas escolhas que provocam a existência a mudar a realidade de todos. É preciso fundir esses aprimoramentos para efetuar avanços significativos na doce e mágica verdade da vida; que traz o trágico e o belo como elementos paradoxais.

Já dizia o Poeta Pernambucano Manoel Bandeira: estou cansado de lirismos comedidos. O que queria era o lirísmo dos bêbados e toda a poesia circunstancial do improvável, do impagável e das coisas feitas de silêncio e luz. É de se esperar dos homens que aumejem: o silêncio dos sábios, a certeza das coisas vãs, a liberdade dos loucos, a beleza dos céus, a caridade dos homens, a humanidade dos incultos, a grandeza dos fracos.

O grande Poeta Francês Charles Baudelaire dizia em versos que o homem devia ser maior que as circunstancias. Por isso, da realidade e suas tragédias, se deve apenas colher o que ela tem de mais aparente, pois já não há como fugir dela e de seus efeitos. A clausura e o isolamento que emana dos problemas da própria realidade tem se tornado dona de muitas crises pelo mundo a fora, passando a se pensar que a ordem dos discursos por ela elucidados é implacável com os que falam e vivem uma verdade ou a publicam nos jornais.

Enfim, toda verdade é fruto de muitas inverdades e, para os homens sinceros, suas reais individualidades já não podem mentir para si mesmos. No fundo a humanidade não dá crédito às suas próprias verdades como metanarrativas prontas porque continua cada vez mais apodrecida, infiel, imprudente, intolerante, carrasca, escravagista, doente, feia, perversa e incoerente. É sempre bom lembrar as palavras do filósofo Francês Jean Paul Sartre quando se efetuar perguntas à efêmera realidade em seus territórios de desumanidade: “o essencial não é o que foi feito do homem, mas o que ele faz daquilo que fizeram dele”.

Para entender a força que tem o silêncio na evolução dos seres humanos como elemento de virtude e sabedoria, é sempre bom recordar o que o filósofo Plutarco deixou para a posteridade: “ A palavra expõe-nos, como nos ensina o divino Platão, aos mais pesados castigos que deuses e homens podem infligir. Mas o silêncio jamais tem contas a dar. Não só causa sede como confere um traço de nobreza”.

Há um ditado Chinês que diz; “Quando as tropas inimigas invadem, os generais combatentes resistem. Quando chegam às águas, a terra as contém...”. Portanto, é imperativo que todos desenvolvam o ato da bondade e da humildade, porque ninguém está isento da lei universal do Carma e da Casualidade.

domingo, 22 de abril de 2012

Tramas do Sagrado: A Civilização Maia no Despertar das Abordagens Arqueológicas.




Gênesis Naum de Farias¹*

Lennon Oliveira Matos ²*

¹*Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF
²*Acadêmico de Arqueologia da Universidade Federal do Vale do São Francisco.


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Forma de citar 

FARIAS, Gênesis Naum de. MATOS, Lennon Oliveira. Tramas do Sagrado: A Civilização Maia no Despertar das Abordagens Arqueológicas. São Raimundo Nonato/PI, 22 de Abril de 2012. 


RESUMO 

O que segue é uma rápida abordagem em torno dos discursos sobre o despertar da Civilização Maia; suas primeiras tecnologias, tendo como pano de fundo os conceitos de Roger Lewin; tentando evidenciar através de novas descobertas, a relação dos Maias com os Deuses. O objetivo deste trabalho é tentar montar a “concha de retalhos” do objeto de estudos, que pretende compreender as tramas do sagrado, na tentativa de encontrar novos conceitos e uma maior perspectiva para as abordagens relacionada à prática religiosa.

Palavras-Chave: Arqueologia; Civilização; Evolução; Religião; Tecnologia.


Apresentação

A relação dos povos Ameríndios com os Deuses não é um fato recente, muitos estudiosos já o tem se debruçado sobre as questões subjetivas que envolvem a relação do homem com o mundo dos mortos e com o Cosmo. Nestes estudos há um apelo por significados que se manifestam intensamente através de personagens, enredos, cenários ─; histórias que buscam recuperar mitos, resgatar a força de um imaginário rico em descobertas.
Um desses contextos acaba de se ser decifrado por Arqueólogos na Guatemala. Trata-se de um mural de 2000 mil anos no qual os Maias homenageiam deuses e reis. Essa descoberta amplia ainda mais a relação desta Civilização com o Sagrado, mostrando uma gama de referências intersubjetivas que há entre os senhores da terra e do céu.
O produto final do texto que segue, pretende dialogar com os diversos olhares sobre as tecnologias utilizadas para a concepção das pinturas e, se preocupa com a elevada utilização de textos referenciais através de cortes históricos amplos para demarcar as fronteiras do discurso arqueológico. Portanto, o que é citado pretende elaborar um breviário panorâmico das abordagens discursivas numa perspectiva similar.


Introdução 

O Renascimento trouxe a tona não só a concepção de um novo homem em uma sociedade antropocêntrica, mas uma gama de outras acontecimentos que favoreceu à História elementos para se produzir “um outro mundo”. A conquista de outras terras deu essa clareza e a conquista espanhola em especial, trouxe ao panorama cultural da Civilização Moderna reflexos de outro padrão de etos civilizatório. Esta por sua vez não poderia deixar de ser pensada, também, a luz do que representou a relação do homem com a antiguidade greco-romana.
Essas conquistas fariam do homem europeu um desbravador de acontecimentos capaz de produzir graus interruptos de interpretação. Uma delas ocorre na América do Sul, quando no planalto mexicano se tem a descoberta brilhante da Civilização Maia. Essa complexa civilização indígena possuía uma relação muito íntima com o Cosmo e era possuidora de um complicado sistema de escrita glífica, na qual se identificavam mais de 800 caracteres distintos.
Era uma Civilização altamente avançada que dominava conhecimentos extraordinários; que possuíam uma relação com o transcendente (infinito) muito forte. Essa Civilização era os Maias, e sua posição na Mesoamérica é parte de uma fenomenologia bastante estudada por ciências como a Arqueologia que sistematicamente, explora o imagético acumulando hipóteses para melhor entender o laborioso acúmulo de conhecimentos empreendido pelo Império Maia.
Nestas tramas imagéticas, aparece a relação com o Sagrado e a descoberta de um Dresden Códex, do século XIII, vindo a ampliar tal reflexão. As pinturas do incrível manual deixam evidente a eminente exuberância desta Civilização, escondida nas cidades protegidas pela floresta deusa, que fazia homenagens diversas entre o divino e o terreno.
A reflexão sobre o Sagrado e a criação artística desenvolvida por esta Civilização se movimenta em sentido contrário ao entendimento moderno, instalado no século XVIII, visto que são intensos os elos entre o que pode se denominar sacralizado e em comunhão com o divino e o que pode ser apenas representado como um fato cultural. Há nesta perspectiva uma relação existencial que está presente na própria manifestação do ser humano, ou seja, entre o revelar-se e revelar-se na dramatização própria da linguagem “atemporal” indiferente aos cânones produzidos pelo pensamento eurocêntrico.
Portanto, coube ao europeu conquistar e impor sua estética moderna, porém o trabalho com a imagem e os monumentos só deixaram claros que os deuses por ela falam. As descobertas no sítio de San Bartolo, na Guatemala, falarão de um Sagrado que já era dominado por uma Civilização há mais de 2000 mil anos.


A Pesquisa 

San Bartolo fica ao norte de Tikal e pertenceu ao país da América Central onde outrora estava localizado à Mesoamérica. Neste país, Arqueólogos acharam uma tumba Maia que foi datada em cerca de 150 a.c. O túmulo fica no lado oeste de San Bartolo. A leste deste sítio foram achados duas salas do ano 100 a.c. Ao lado de uma pirâmide oculta por uma construção, feita posteriormente, se descobriu um mural Maia, narrando feitos divinos e reais. (SATURNO, 2005).


O Contexto 

O próprio Saturno evidencia a fala da Arqueóloga Mônica Pellecer Alécio para enfatizar a importância do trabalho arqueológico: “O projeto teve início em março de 2001 com um golpe de sorte, de pura sorte, quando entrei numa trincheira que ladrões saqueadores haviam aberto na pirâmide. Meu olhar pousou no rosto de um deus de milho olhando por cima de uma donzela. (...) Em 2003, comecei a cavar o túnel, comecei a cavar um túnel para dentro da sala do manual (...)”. A pesquisadora evidencia a importância da escavação para poder salvaguardar o que ainda restava de vestígios e acabou se deparando com algo que mudaria a leitura do processo: o mural Maia. A importância de San Bartolo para esse despertar Maia como uma trama para se entender o Sagrado, se coloca como um grande livro aberto para narrar outros aspectos da história da relação das Maias com o Cosmo.   


O Artefato 

O Dresden Códex é datado do século XIII e reflete pinturas que contam histórias com a mesma gratificação obtida por obras clássicas da arte moderna. Trata-se de painéis que falam de oferendas de sangue e coroações. Marcam o nascimento da Cosmologia Maia; sua relação com o Direito Divino dos Reis e seus sacrifícios.
O acervo foi digitalizado em 350 pequenos setores, criando um grande painel que ilustra em linhas originais, o que ficou escondido cerca de 2000 mil anos. Ao todo são 42 painéis que configuram a formidável mensagem de um passado sagrado e desmembrado pela conquista espanhola. “Will Saturno usou scanner para digitalizar fragmentos do mural no lugar original”.


A Escavação 

A escavação na sala mural começou na parede norte – documentada pela NATIONAL – e mostrou que a união dos fragmentos (digitalizados) revelaria temas da crença Maia que atravessaram mais de dois milênios. O Sagrado nestes painéis refaz conjunções que ajudaram a ligar a Terra e o Céu numa trama que ordenava sacrifícios com colheitas, adoração com coroação, etc.
O mural de San Bartolo mostra um ciclo de divindades compondo árvores sagradas que ordenam o mundo. “(...) o Dresden Códex, do século XIII, é a prova da continuidade do simbolismo religioso Maia. Pouco resta do quinto deus, à direita dos sacrifícios, mas parece ser o do milho, uma das principais divindades (...)”
De fato, há na associação natureza-cosmo uma profunda intimidade onde reis ordenavam tudo com a permeação do Cosmo: edifício, ruas, monumentos, cidades, etc.
O mural celebra a ascensão e narra o paralelo entre a vida e os ciclos agrícolas. Na verdade o deus do milho coroava a si como representante legal da governança. Nisto, os reis herdavam dos pais “(...) o direito de soberania, mas este, ao mostrar-se em companhia divina, pode estar afirmando que recebe tal direito dos próprios deuses (...). (SATURNO, 2005 p. 83).


A Historicidade do Mundo Perdido 

O mural Maia guarda muitas surpresas. Os estudiosos da questão acreditam que naquele estágio antigo da História dos Maias, as cidades-estado ainda não haviam se desenvolvido plenamente. O fato é que alguns quilômetros daquele local há uma tumba Maia de um rei de verdade, afirma a Arqueóloga, guatemalteca Mônica Pellecer Alécio. A mesma afirma: “Debaixo da tumba, havia a ossada de um homem e oferendas, como uma tigela em forma de sapo e um vaso com a efígie do Chac, o deus da chuva”.
O importante é pensar que depois de 2000 mil anos, o poder sacralizado dos deuses unia os ciclos das chuvas, também as colheitas, fertilidades e tempestades na mesma comunhão com a força da subjetividade que se emprega ao feito. O império Maia viveu em suas origens o impacto Olmeca, os primórdios da vida sedentária desenvolvida a partir da agricultura.
Foi uma Civilização que se desenvolveu nas Terras Baixas, dominava a astronomia e possuía um calendário e uma escrita. Teve um despertar clássico, viveram sob uma “idade do ouro” e tiveram um declínio também Clássico num período Pós-Clássico. A territorialidade espacial do império Maia somava a cifra de 325 mil quilômetros quadrados “que abrangia cinco estados do México atual, quase toda a Guatemala, parte de El Salvador, parte de Honduras e Belise.”.
Paul Grendop descreve ainda o período formativo ( 2500 a.c. a 200 a.c.) como um período bastante rico que serviu para nortear a ascensão do império, “(...) com destaque para o impacto Olmeca nos antecedentes da Civilização Maia,e concentra-se então nas diversas fases do período clássico, o qual culmina com a Idade do Ouro dos Maias(...)”.
È importante levar em consideração a fase do declínio do império Maia, pois a fase que corresponde à absorção mexicana é apoiada em questões ligadas a organização e sócio-política e a economia.


O Sagrado 

Ao analisar a importância de San Bartolo para a pesquisa em curso e em estudo, se percebeu que para se chegar à noção das tramas que se empregam ao sagrado foi privilegiado o aspecto “não-racional” do Sagrado, ou numinoso. As tramas, tecidas pela Civilização Maia, mostraram um sagrado plural, mestiço, hibrido, opulente, vigoroso ─; seguindo a orientação de determinada crença. No geral, o mural Maia (Dresden Códex) é uma construção imagética que possui tramas textuais que falam através da política com arte, pluralidade e pensamento.
Enfim, as Tramas do Sagrado permeiam lugares em que tanto a sacralidade quanto o profano reafirmam suas marcas genealógicas, consistindo numa abordagem que privilegiada a vida religiosa e sincrética como também os elementos que reúnem o fantástico e o maravilhoso.


Considerações Finais 

Os estudos mostram que a todo instante multiplicam-se as interpretações sobre a invenção de quadros explicativos e classificações, com ênfase na História das Arqueologias, e que as uniformidades tendem a conceituar as derivadas noções da cultura elaborada pela Civilização Maia para um plano menos homogeneizado, onde os discursos sobre o Sagrado começam a ser assimilados como procedimentos herméticos, indispensáveis para a crítica das práticas interpretativas, no interior dos pressupostos discutidos pelos estudiosos. Pedro Paulo Funari diria que essa última instância das pesquisas arqueológicas evidenciaria a pluralidade e a conseqüente convivência da variedade com o sagrado, passando a construir aspectos de um mundo também caracterizado pelas diferenças.  


Para Saber Mais: 

GENDROP, Paul. A Civilização Maia. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

SATURNO, Willian. “O Despertar Maia: Deuses e Reis.” In: International Geographic/ Brasil- Março, 2005 p 76/85.

DOYLE, Arthur Conan. O Mundo Perdido. – São Paulo: CEN, 2005.

LEWIN, Roger. Evolução Humana. – São Paulo: Atheneu Editora, 1999.

_____. “As primeiras Tecnologias de Fabricação de Ferramentas.” In: Evolução Humana. – São Paulo. Atheneu Editora, 1999. p. 309/321.

_____. “Novas Tecnologias”. In: Evolução Humana. – São Paulo. Atheneu Editora, 1999. p. 343/349.
         








sexta-feira, 20 de abril de 2012

Conversas com a Boêmia: Uma Observação Participante.




Gênesis Naum de Farias/Poeta Bruxulesco e Professor
Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF.



Um homem que foi, em sua própria descrição um cidadão de outro tempo, disse-me outro dia que vinha de um século de ideias e vivia preso e desenconcontrado por uma natureza conservada nos rigores do pudor, porem me garantiu que precisava sair de certa boêmia galante, onde tudo desregrava-se numa fria busca por sentidos. Por isto assumia, nesta atmosfera dos tristes, uma dimensão simbólica pretensamente subjugada a um sentimento e uma necessidade de subjetividade que em suas paridades tornava-o refratário e intensamente deslocado. Seu relato agonizava como uma cidade morta tentando refletir suas próprias incertezas. Ao assumir o papel epifânico das contradições, adormeceu e se entregou a um reino pessoal de silêncios e comunhão. Queria me dizer mais coisas sobre a vida dourada que levava, mas me contive em perguntas e decidi também me recolher a uma insignificante ternura por acreditar que a todos é dado o sentido que se quer quando a maturidade cobra seu lugar nas existências... Aquela imagem passava suas experiências a limpo tentando dizer que não dormia, mas vivo estava; o problema se distinguia e ao longe, se revelava num crepúsculo de emoções suavizadas em contornos de uma realidade dolorosa, refeita em sabedoria, dona de uma saudade redentora que me transportou às ruínas tristes dos infortúnios, onde morre-se devagar, dia a dia, hora a hora, silencioso e esquecido numa revoada de lampejos, refletindo que o fim retoma o princípio e nos faz renascer em outras épocas.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Profissão



Gênesis Naum de Farias/Poeta Bruxulesco e Professor
Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF.




Escrevo para cada dia me parecer novo
E cada novo dia me nascer um novo verso
Parem! Eu confesso: sou Poeta
De dia me fecho a porta
E à noite abro a janela.

Me escrevo por ser novo
Mas não me encontro
Em minha escrita
Nem sequer me procuro
Prefiro ficar quieto no escuro
Enquanto o mundo
Gira e grita e gira e grita.

Escrevo porque amo o ócio
O mundo me nasce em frente
E durmo sonhando com um novo dia:
Diria que seria sonho
Se todo dia fosse contente
E não esse torto negócio.

Escrevo para ter que me ler
E me descobrir a cada dia
Se amanhecer
Amanheço
Se anoitecer
Anoiteço
Meus versos são pássaros
Que não vivem mais no ninho
Há sempre um novo lugar para estar
Uma nova vida para viver
Uma nova hora para se contar
E um novo verso para se escrever.



Post-Scriptum: Gênesis Naum de Farias
em parceria com o Poeta Marcos Rangel.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

A Importância da Universidade para a Região



Gênesis Naum de Farias/Poeta Bruxulesco e Professor
Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF.


“Todo mundo tem que viver uma grande paixão e uma possibilidade de revolução.”
(Marilene Chauí)

Há exatos sete anos, mais precisamente em meados de setembro, escrevi uma matéria jornalística que levantava uma bandeira chamando todos para abraçar a luta dos Professores e Alunos do antigo Cefet/Petrolina, hoje IFPI – Sertão, pela criação da Universidade Federal do Vale do São Francisco. Naquele tempo, eu me fazia portador da representação estudantil; foi uma grande batalha e vencemos porque éramos encorajados pelo sonho da Universidade no Sertão. O sonho se concretizou, vencemos a quebra de braços levando ao Congresso Nacional quase setenta mil assinaturas; manifesto assinado por pessoas simples que acreditaram na possibilidade de poder sonhar com uma Educação de qualidade bem próxima de todos, ao alcançe dos mais despossuídos financeiramente, pois universidade no litoral era coisa para poucos. Vencemos e conseguimos ganhar a opinião pública, fazendo dela o arauto para a grande revolução que se revelava. Porém, essa luta por Educação e qualidade de vida não deve morrer, visto que é necessário que o cidadão atente-se para questões maiores e continue na vigilância social da luta por direitos e garantias.

O momento é de oferecer parabéns a todos que perderam seus inúmeros finais de semana correndo nas ruas com os alunos para colher assinaturas, dar palestras, oferecer informações, participar da conquista que estaria por vir, pois a luta atingiu os objetivos pretendidos fazendo com que hoje a Universidade Federal do Vale do São Francisco seja de todos e pertença a um sertão esquecido que possui fronteiras em três Estados da Federação. É importante lembrar que a mesma pertence ao Piauí, pertence a Pernambuco e pertence a Bahia. Neste instante, saúdo todos os cidadãos que se dispuseram a colocar suas assinaturas no papel da nossa pequena revolução. É com muito orgulho que devemos olhar para esta Universidade, porque ela foi fruto de muitos sonhos, de muitas perdas e baixas, de muitas noites em claro, de muitas lágrimas vertidas, de muitas palavras ditas para informar, para debater, para questionar, para gritar vitória quando o Presidente da República aprovou o projeto final.

Essa já era uma reivindicação antiga, feita pelos ribeirinhos e, contemplava a todos de forma unânime; era necessária para alavancar não só o desenvolvimento estético das cidades do Grande Vale, mas provocar mudanças, impactos, desenvolvimento. A Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF, como carinhosamente conhecemos é isto, um feito de universalidade que se reflete na formação dos sujeitos, se reflete na Educação, na reelaboração de culturas, na mudança de mentalidade. Portanto, a sua chegada proporciona uma maior fomentação estrutural sobre a reflexiva realidade do sertão. Por isso da importância do momento, de envolver sistematicamente a sociedade Sanfranciscana na celebração de um acontecimento histórico.

O papel da Universidade no contexto em que está inserida vem proporcionar uma maior socialização nas divisas culturais, ampliando experiências de educação, trabalhando para ampliar as perspectivas sócio-educacionais porque suas ações com pesquisa, extensão e ensino estão voltadas para a realidade sócio-política-economica-cultural do Sertão Nordestino. Sendo ela uma instituição de ensino superior que congrega um conjunto de ações para a fomentação das novas especialidades científicas e profissionais, que tem função precípua na garantia de manutenção do progresso para os diversos ramos do conhecimento produzido nas salas de aula.

Em geral, a Educação nestes termos tende a ser benéfica para todos, visto que nem sempre ela foi tão bem facilitada pelas políticas públicas que possuíam objetivos claros na domesticação cultural, no amesquinhamento humano, na agressão estética e moral, na violência do forte sobre o mais simples. Ao perceber que somente os processos formativos podem capacitar e libertar os cidadãos da opressão vê-se a necessidade de mais escolas, de mais qualidade de vida, de mais emprego, de mais possibilidades. Estas, porém surgem quando uma escola de qualidade é oferecida.

Nesta Universidade vi e vivi a miragem sedutora da ascensão social que é como o organismo social da escola é capaz de atrair e transformar o indivíduo. A mesma escola, que atrai o indivíduo por uma miragem sedutora, produz um indivíduo que anseia por informação e autonomia, por um mundo admirado, desejado, quando em si é subjugado por um mundo de oportunidades que está do outro lado do mundo.

Nesta Universidade fui feliz em minhas grandes verdades. Fui planetário, elegante, eloqüente, majestoso, iluminado, fragmentado, desintegrado, unificado, democrático, intolerante, amado, odiado e diferenciado. Agora preciso ensinar a ser, pois ela me formou para isso, preciso ensinar a conviver, preciso ensinar a fazer para que as ações propositivas da formação que tive gerem transformações e evoluções íntimas; onde o global e o local sejam relevantes para a minha própria construção como sujeito histórico.

Nos bancos desta Universidade aprendi a ser um homem melhor e ocupei um lugar social; fui ético com meus princípios e ensinei compreensões. Aprendi a fazer e ressignifiquei os espaços; enfrentei minhas próprias incertezas históricas; compreendi minha identidade terrena e fui sistêmico, ordenado, desordenado. Afinal, estudei e refiz novos caminhos.

O que me reserva agora nesta fronteira imaginária? Sei que precisamos acreditar na relevância destes sete anos de conquistas; precisamos celebrar os significados da conquista e encontrar sentido em outras experiências de aprendizagem para transpormos mais sete anos de vitórias.

Faz-se urgente ser agente de nossas próprias transformações culturais; o presente que hora se celebra é de todos, pois possui uma linguagem atemporal e já sonha com mais sete vezes sete na esperança de modificar a sociedade que convive com a indiferença num mundo de esperanças, trabalho e oportunidades para todos. Sartre nos lembra que “O importante não é saber o que fizeram do Homem; mas saber o que ele faz daquilo que fizeram dele”. Parabéns UNIVASF pelos seus sete anos de emancipação científica e cultural.


terça-feira, 10 de abril de 2012

O Quarto




Gênesis Naum de Farias/Poeta Bruxulesco e Professor
Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF.



Aos que andam por ai sem a direção do tempo e que magoam o vento com soberbas intrujices, venho ao largo pensar que não há como se demorar em perceber que a vida reflete os sons que brota da verve do mais ingênuo ser, quando em ocasião a ação tece suas subjetividades, falando por quereres que o mundo o entenda como um ser que pertence a todas as dores do humano. O que sinto ao me referir ao tempo em que vivo, e assim me viro como posso, vai muito além das convenções, haja vista o fato de que muitos homens sobrevivem em cidades infectas e cheias de corruptas mentes e tem poucos amigos e dormem em camas indolentes e fingem acreditarem que as chamas do fogo dos astros não são eternas, mas quando clamadas em adoração, são como a eternidade batendo a porta de deuses e adeuses. Tenho cá poucos amigos e me relaciono como os ingleses a sua parte; quando muito, estou entregue a devaneios poéticos e nestes dias minha vida tem sido considerada um trago só, repleta de tédio, por não ter com quem conversar sobre os seus acontecimentos habituais. No mais, venho bebendo muito e me sinto triste, desconfortavelmente, demasiadamente triste, frio e silencioso, mesmo quando sozinho vivemos as fantasias que nos perturbam a lucidez. E estando a definhar, sinto-me profundamente insultado, visto que sou um homem de arte e estudos, dono de outros ares, membro de outras eras. Agora já, perto de sentir os ímpetos do romantismo, me acho debilitado e profundamente angustiado, amargurado por assim dizer com tudo que se possa dar um nome ou ocupar-se de um sentido largo; logo eu que jurei nunca mais sentir nada, nem por amigos, nem por amantes, nem por qualquer coisa que o valha. Cá estou eu, franciscano como sempre fui, a viver do poético som dos espaços em um simples quarto de acenos soturnos em boas e bem vindas passagens. Aqui se finda a paz neste quarto de belas brasiléias, onde jazem amores e desejos que pisam a terra com passos de encantados e que por hora adormecem os afagos sonoros da saudade. Aqui se finda a saudade do eterno retorno, profundamente triste, talvez seja esta vida dourada que levo a beira dos dias, talvez seja esta verve cheia de infinitos, rancorosa e repleta de desassossegos, agora que decido me entranhar em orações e silêncios ao passo que me refreio ao descambo dos dias quando talvez precise mesmo é de uma longa viagem para que ao gosto dos românticos, possa me refestelar de um banho por dentro.