quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Joaquim Nabuco: Fragmentos de Uma Existência Pública


Gênesis Naum de Farias/Poeta Bruxulesco e Professor
Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF.




O período que sentencia os ares aristocráticos da Monarquia e os desalinhados progressos da República norteia a história do pensamento desta Nação por ser compreendido como o cenário formativo de um Brasil sem os retoques propositivos que objetivavam definir um projeto claro de cidadão brasileiro como parte de um conjunto de elementos que ressignificavam a identidade de um povo a partir da autonomia. O cenário é transitivo, bem com a ordem discursiva dos acontecimentos. É neste cenário fragmentado, que encontramos o lendário Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo.

Este vulto secular se postergou como um Pensador da Pátria que serviu para ampliar a relação de importância tanto do Império quanto da República, afinal era nas questões fundamentais do País que estava focado suas ideias e ambições.

Ao tempo em que lutava arguidamente para soerguer a soberania social colecionava inimigos em tribunais e palanques; foi do céu para um inferno tramado por outros interesses políticos e intelectuais, onde, às vezes, a vaidade transpunha o lugar comum enumerando o real sentido de uma luta para consolidar um País através das relações diplomáticas que corroboravam para celebrar os princípios democráticos.

Joaquim Nabuco é o exemplo de político que idealizava os nortes dos acontecimentos futuros. A trama dos seus dias já tinha se configurado quando lembrado pelos feitos do Pai, José Tomás Nabuco de Araújo (1813 – 1878), Ministro da Justiça e Conselheiro do Imperador, Dom Pedro II, sendo profundamente significativo quando a tônica era pensar as questões que pontuavam o Senado Federal.

Por esse veio genético se configurou o pensamento do homem que idealizou a libertação dos escravos como bandeira atemporal, de fatos que não cabiam numa reflexão de curto prazo, mas reberverava por séculos, pois a escravidão era parte da estrutura mental do homem daquele tempo. Essa estrutura perversa, que durou quase três séculos e meio foi o objeto maior dos anseios deste nobre pernambucano.

A importância de Nabuco para estes dias de incertezas e de crises significativas para a representação social é parte da crise de referenciais no território da política e serve para que se pense na importância da autoridade política como parte do pragmatismo público que gerencia os interesses do povo brasileiro. Por isso é importante pensar nos feitos de Joaquim Nabuco como o elo para se alcançar o etos de Nação Civilizada.

Os embates que vivenciou na vida pública definiram sua marca no conceito de nacionalidade, tendo em vista que sua atuação na causa da escravidão foi decisiva para formar o pensador, transgressor, das novas narrativas que se consolidavam no seio da sociedade do seu tempo. De formação acadêmica e de círculos literários muito producentes, sua vida pessoal foi bastante movimentada. Integrado na transição do Império à República, formou-se no Direito, desafiou estruturas, amou, sonhou, foi homem de letras. Seu abolicionismo era radical e orgânico.

Com o advento da República, vê-se diante do desafio de articular modernização política e tradição aristocrática. É essa visão de mundo, que transita entre passado e futuro, recheada de decepções, que lapidou o perfil de Nabuco. As tramas da sua existência se elevam simultaneamente entre os contextos de uma época em que se vivia paz interna e prosperidade econômica em um sistema político funcional. Era o ambiente do Período do Segundo Reinado. Período de intenso desgaste nas relações que definiam o primado do capital humano, quando no Brasil se consolidou a noção de unidade nacional.

A prática intelectual trouxe a Nabuco o equilíbrio necessário entre a moral aristocrática (tradição) e as aspirações de motivação social (reformas). Nabuco era público e notório quando a articulação política não alcançava a denominação da promoção do escravo como cidadão, por isso foi golpeado diversas vezes por autoridades políticas e hierarquias sociais.

O porte estético de Nabuco também incomodava; desde cedo recebeu a alcunha de “Quincas o Belo” ─; reacendendo seus dias de criança no Engenho Massangana, no enleio de uma infância primorosa, aos dias de poeta, boêmio, cortesão, apegado à boa vida, nas ruas de Londres ou Paris. O fato é que um homem belo produz muitos inimigos, e quando se atem ao usufruto de unir beleza, literatura e elegância, as boas maneiras transcendem a utilidade prática, porém era indispensável na composição do seu universo de dândi. Era tudo o que faltava nos seus adversários políticos, pois o perfil intelectual dos Republicanos seguia outras orientações ideológicas e estéticas.

O que pensava Nabuco para o Estado Nação? Suas orientações aristocráticas defendiam uma Monarquia Federativa, pretendo manter as tradições numa perspectiva laica que contribuísse para sanar as dividas sociais que o lastro da escravidão deixou; outra ambição era a indenização dos escravos, dando-os muitas terras para trabalhar. O Poder Moderador seria mantido como um pressuposto constitucional independente, dando ao povo o poder de deliberar os rumos democráticos para os novos tempos. Portanto, o projeto idealizado, de emancipação, arrojado e moderno, ficou pela metade e a desigualdade social se reflete nos limiares da contemporaneidade. 

Em meio a tantas turbulências no contexto do liberalismo econômico, o que faz de um ser humano um mito? Alguém poderia dizer que é a sua força de expressão, as obras produzidas, o olhar multicultural ou até a capacidade de reunir forças para se projetar politicamente em meio a tantos enredos macabros no jogo político que governa o povo, deliberando as relações diretas com a opressão ou até com a manutenção de uma prática discursiva que lega a miséria de muitos. Joaquim Nabuco esteve sempre a frente do seu tempo porque reunia todas as grandes virtudes de um aristocrata bem formado, possuindo uma elegância sintomática nas ações de um perfeito cavalheiro, que na posteridade se mantém vivo nos sonhos de liberdade em tempos de censura livre.

E para referendar ainda mais sua obra contra a escravidão – seu legado maior –; o próprio Nabuco proclama: “[...] a escravidão para mim cabe toda em um quadro inesquecido da infância, em uma primeira impressão, que decidiu, estou certo, do emprego ulterior de minha vida”.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Entrevista: Josemar Martins Pinzoh
Cabaré Bruxulesco Hall®

O Professor Pinzoh revela-se em O mesmo outro




O Doutor em Educação, Josemar da Silva Martins, lança livro onde revela suas insônias, ao tempo em que rascunha os principais traços de sua inquieta produção intelectual através das letras e da poética transcendência do ser em exercício de nudez.

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Gênesis Naum de Farias
Poeta Bruxulesco e Acadêmico da Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF.
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Josemar Martins Pinzoh é Professor Ajunto do Departamento de Ciências Humanas (DCH III), em Juazeiro, Bahia, da UNEB com Especialização em Gestão de Sistemas Educacionais pela PUC de Minas Gerais; tem Mestrado em Educação e Desenvolvimento Sustentável pela UQAC (Québec, Canadá) e Doutorado em Educação pela FACED/UFBA.  Na Universidade do Estado da Bahia, o Poeta Pinzoh como é mais conhecido, está a cargo de uma importante missão: promover discussões literárias e lançar-se com o intuito de eleger as primícias culturais da sua poética transversal, na tentativa de recriar-se na idílica travessia do Poeta em desalinho impondo-se num rascunho de si para o outro.



Gênesis Naum – Por que reunir textos com idades diferentes no livro O mesmo outro?

 
Josemar Martins Pinzoh – Porque é o que eu tenho para mostrar. A poesia não é minha atividade rotineira, é meu espaço de evasão. Durante muito tempo me dediquei ao trabalho acadêmico, à leitura conceitual e teórica, à escrita acadêmica. Mas sempre escrevi poemas, quando me apaixonei, quando me entusiasmei, quando me desiludi, quando me cansei, quando me indignei, quando perdi o sono. A poesia e outros formatos de escrita literária são o meu espaço de excedência, como eu digo no livro, é minha inscrição rupestre no fundo da minha caverna.  Não sou um escritor. Mas agora resolvi juntar o que eu tinha, mostrar para algumas pessoas e, com o aceno positivo da maioria delas, resolvi publicar. Por esta razão há poemas com idades muito diferentes, inclusive consta no livro o meu primeiro poema, “A Mão”, escrito em 1984, e que nunca havia sido publicado.

GNF – A expectativa está sendo interessante?

JMP – A minha expectativa não é a de que este livro vire um Best-Seller. Apenas vou mostrar o que escrevo, não estou preocupado com a critica, principalmente não estou preocupado com a critica ressentida, que sei que há muito por aí. Mas me interessa a recepção, porque isto me dirá até onde o que escrevo pode interessar e pode ser aceito como poesia. Eu sei que existem círculos literários com nomes diversos, muitas vezes restritos, que acham que você tem que pedir a benção a eles. Mas este livro não é um pedido de inscrição nesses círculos. Não estou pedindo licença ou desculpa para escrever e publicar.

GNF – A idéia do livro é importante porque procura mostrar a outra face do Poeta que adormece isento de badalações, ao tempo em que evidencia uma produção artística derivada de uma busca pessoal pela palavra escrita...

JMP – É isso. Veja, não há poesia apenas no poema. Muitas vezes um texto conceitual também tem poesia. A poesia me interessa, não apenas a que escrevo, mas a que consumo. Então o livro mostra também o que sou e o que consumo, é resultado dessa trituração daquilo que eu acesso como poesia.

GNF – Você é um Poeta que discute com freqüência os efeitos da chamada “Pós-Modernidade”. Como a Obra “O mesmo outro” dialoga com os escritos de Lacan?

JMP – Não há Lacan em meu livro – a não ser que seja inconscientemente. Sei que o livro 16 de O Seminário de Lacan chama-se “De um Outro ao Outro”. Mas eu não sou leitor assíduo de Lacan. Eu apenas folheei algumas coisas dele. Minha praia é outra. Talvez, como obra literária o meu livro O Mesmo Outro está mais próximo do livro “O Outro, O Mesmo”, de Jorge Luis Borges, uma vez que este livro de Borges é de poesia, mas Borges se notabilizou como escritor de prosa e não de poesia. Por esta razão talvez esteja mais próximo deste. Mas não apenas pelo titulo: é que em “O Outro, O Mesmo” Borges também fala de si, da cidade que lhe habita, Buenos Aires.  No fundo os poetas falam muito de si mesmos. Mesmo os vários heterônimos de Fernando Pessoa ainda são Fernando Pessoa. Em relação à “Pós-Modernidade” há apenas um poema que entra neste tema, mas passa rápido. Há outros que talvez encenem um pouco este tempo turvo, fractal ou “fracticídico”. Mas eu acho que, no geral os poemas estão próximos da poesia moderna. A minha discussão da pós-modernidade eu exerço mais no campo conceitual, mas claro que isso cruza o campo da criação poética.
 
GNF – Por que trabalhar com o fenômeno da poesia quando a falência dos valores sociais deforma uma geração inteira atingidos pelo consumo desenfreado e pela banalização da cultura nas cidades?

JMP – Talvez por isto mesmo! Plantar poesia na bagunça do dia. Talvez seja um modo de resistência. Mas a poesia não casa bem com esses compromissos, sob risco de virar mero engajamento. As cidades em geral são sem poesia, constituídas de todos os tipos de iniqüidades, entre elas o lixo, o fícus e a fuleiragem. Um dos poemas expõe isso. Mas eu procuro levar a poesia para outro lugar, onde ainda podemos, talvez, saborear aquilo que a palavra pode oferecer, em seu turbilhão cores, sabores e avessos.

GNF – Que importância tem a poesia na sua formação?

JMP – Eu sempre li poesia, embora pouco. Confesso que durante muito tempo li mais livros conceituais. Tampouco li os considerados clássicos, que todo mundo vive estufando a boca para dizer que leu. Eu li poetas nem tão conhecidos assim como Alex Polari, Ledusha, Eduardo Alves da Costa, e li Drummond, Vinícius, Leminski, o próprio Borges, Ferreira Gullar. Li também os poetas mais próximos, Pedro Raimundo, Joseph Bandeira, Ângelo Roncalli, Expeditinho, Lupeu.

GNF – Qual a principal abordagem do livro “O mesmo outro”?

JMP – Não há uma abordagem. É um livro de poesias, com temas variados, formatos variados, motivações variadas.

GNF – Quais as características e particularidades de sua Obra. Fale de suas influências, amigos, parceiros e projetos para o futuro...

JMP – Se você ler O Mesmo Outro você vai me ler. Vai entrar em mim, de certo modo, talvez para encontrar um outro que você ainda não conhecia. Esta é uma característica. As influências são essas que eu já mencionei na resposta anterior.

GNF – Qual a proposta do seu trabalho em “O mesmo outro”? Comente a relação existente com a vida acadêmica, portanto, os significados deste enredo nos caminhos da descoberta para re-significar sua existência?

JMP – A proposta do trabalho é simplesmente mostrar o que eu escrevo. Não há uma relação direta com a minha vida acadêmica, é outra coisa, outro trabalho, outra viagem. Como eu disse é meu espaço de evasão e de excedência. Vou continuar fazendo o meu trabalho na academia e vou continuar escrevendo as minhas poesias sem que ninguém me mande ou me peça relatórios disso. São coisas diferentes. Elas podem até se encontrar, podem se cruzar, mas são coisas diferentes.

GNF – Qual a metodologia usada para a construção desses enredos poéticos? Se é que existe uma metodologia para o trabalho poético. Quem são seus heróis?

JMP – Não há nem método nem heróis.

GNF – Quais os maiores desafios ao se pensar em publicar um livro? É preciso prevalecer, sobretudo com a fluência da sensibilidade?

JMP – O primeiro desafio é, antes de tudo, ter o que publicar. Ter um trabalho escrito que você ache que vale a pena publicar. Ou outro desafio é encontrar onde publicar, ou seja, uma editora. Aqui nós não temos editoras nem know-how. Eu quis fazer uma publicação com uma padronização que eu considero razoável, com um papel edequado para o miolo, com um acabamento razoável para a capa, com creditação adequada, com ISBN, depósito legal na Biblioteca Nacional, com opção de inclusão em catálogo para venda pela internet. Isso você não acha por aqui. Eu tive que buscar isso em São Paulo. O último desafio é decidir se você banca a publicação ou se você contará com um editor. São esses os desafios!

GNF – O que você aborda no livro que dá sentido ao reconhecimento do eu e do outro em O mesmo outro? O que essa relação representa na sua poesia?

JMP – Acho que, muito longe desta pretensão de explicar qualquer coisa, ou de dar reconhecimento de nada, o livro chama O Mesmo Outro porque expõe, por um lado, um trabalho que muita gente que me conhece não sabe que eu faço, e por outro lado porque, este que se mostra nos poemas, também está em processo de permanente transformação. Por isso é o mesmo, mas é, ao mesmo tempo, outro.

GNF – As Universidades valorizam, de forma adequada os escritores locais?

JMP – Nem sempre – inclusive porque nem sempre os escritores locais oferecem à Universidade as suas obras, ou quando oferecem, não é com a qualidade que esperamos. Ou então é porque não interessa mesmo. Eu não escrevi este livro para a Universidade. Não acho que O Mesmo Outro interessa à Universidade. A não ser daqui a uns 200 anos, caso haja algum estudante curioso que se dedique a uma espécie de arqueologia da poesia e encontre lá, soterrado, o livro em forma de fóssil. Eu não escrevi este livro para a Universidade. Se ela se interessar, menos mal. Se algum gestor público quiser colocá-lo nas prateleiras de suas bibliotecas, menos mal. Vai ser ótimo! Mas eu o escrevi sem essas pretensões.

GNF – “O mesmo outro é, antes um trabalho de desobrigação...” O que representa esse misterioso mundo da matéria poética que se faz escrito, diante da sua busca sempre e em permanente estado de transcendência?

JMP – Quando eu digo que é um trabalho de desobrigação, estou dizendo que é algo que eu precisava mostrar, mas isso não é um trabalho de obrigação, é de desobrigação. Como diria Jánio Quadros, “fi-lo porque qui-lo”.

GNF – Você já passou por situação idêntica? Isto é, já duvidou em algum momento da veracidade de sua existência?

JMP – Eu sempre pareci um maluquinho, mas eu sempre fui muito na linha. Sempre vivi nessa fronteira entre o instituído e o instituinte, entre o legal e o ilícito, entre o mocinho e o bandido. Esses são meus outros. Mas eu não cheguei ainda a este estágio de loucura de duvidar da minha própria existência. Não tenho tempo pra isso.

GNF – Que mundo é esse? O mundo da desconstrução, da reflexão, da síntese... Por que as descobertas continuam presas dentro de cada ser humano, bastando que o mesmo simplifique sua busca existencial, canalizando-a para a objetividade, para a luz, para a verdade, quebrando assim o medo do desconhecido?

JMP – Não sei se estou à altura  do que você solicita nesta pergunta. Para mim o mundo é cada vez mais a aceleração da frase de Caetano que diz que “aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína”.  Agora eu não sei como fazer para simplificar a busca existencial de cada um, tampouco sei como fazer para liberar as descobertas que estão presas dentro de cada um. Tem gente que busca isso no divã. Tem gente que procura o padre e se confessa. Tem gente que escreve diários íntimos. Tem gente que escreve poesia, tem gente que faz da poesia uma musica. Tem gente que se droga.  Tem gente que se mata. Entre as minhas opções está a poesia.

GNF – O que nos liberta nesse mundo?

JMP – Como ia dizendo... o advogado, o psicólogo, o padre, a policia, a droga, o sexo, a leitura, a musica, a criação... Depende de qual é a sua prisão.

GNF – No mundo dos “ciborgues” será preciso repensar a condição do ser humano nesta globalidade de situações que o envolve e o exclui. Como pensar o Eu com o Mundo?

JMP – Acho que depende o tipo de atrito do seu Eu com o mundo.

GNF – Você acredita que a cultura pode salvar os jovens desse marasmo e projetá-los para outro universo?

JMP – A cultura é uma palavra-armadilha. Tanto liberta como aprisiona. Este marasmo que você fala é também um marasmo na cultura e da cultura. A cultura de massa também é cultura. O consumo é uma forma de cultura, das mercadorias, do fetiche. Acho que, neste sentido, é preciso oferecer outras possibilidades de expressão. Para salvar eu não sei, mas para ter opções de escolha. É preciso ainda investir numa educação dos sentidos. Por exemplo, falando da poesia, tem gente que só consegue ler poesia “água-com-açúcar” ou “pensamento de FM”, essas traduções idiotas das músicas internacionais ou essas babaquices da estupidez romântica. E por que só conseguem entender isso? Porque só tem acesso a isso. Por não temos biblioteca, cultura de leitura, somos ainda uma população iletrada. Não sei se isso salva ninguém de nada, mas prefiro acreditar que estaríamos melhor se houvesse um lastro mais largo na formação das pessoas, para que elas fossem capazes, inclusive, de ler poesia.



quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Educação, Sociedade e Contemporaneidade: Os novos rumos da Educação para o Século XXI.



Gênesis Naum de Farias¹*
Enos André de Farias²*


¹*Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF.
²*Professor de História da Rede Pública do Estado e Pernambuco.
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Forma de citar



FARIAS, Gênesis Naum de. FARIAS, Enos André de. TEIXEIRA, Flávia Alves. Educação, Sociedade e Contemporaneidade: Os novos rumos da Educação para o Século XXI. – São Raimundo Nonato/PI, 2011. Disponivel em: http://diariobruxulesco.blogspot.com/2011/12/educacao-sociedade-e-contemporaneidade.


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RESUMO

A discussão deste ensaio crítico assume o compromisso de discutir as questões que interessam às mudanças cruciais ocorridas nas últimas décadas, no território da Educação Básica, se propondo a compreender os enunciados teóricos que documentam os diferentes olhares que estruturam nossas instituições de ensino, se preocupando em pensar os desafios significativos para a contemporaneidade através dos novos rumos que a educação enfrentará no século XXI, tendo como eixos centrais o domínio técnico numa época em que a produção do conhecimento tornou-se crucial para o desenvolvimento econômico e social. Daí a importância de se repensar o lugar da escola, o lugar do educador e o lugar do fazer pedagógico. Para tanto, para que se alcance esse objetivo é preciso tornar claro para todos os educadores quais são os pressupostos epistemológicos que se fundamentam suas crenças a respeito da Educação.


Palavras-Chave: Educação; Currículo; Sociedade do Conhecimento, Economia do Conhecimento; Gestão do Conhecimento; Razão Pedagógica.



Muito se fala, atualmente, sobre a nova sociedade que se estrutura para o século XXI e para os seguintes. Aqui assumimos o compromisso de discutir as questões que interessam às mudanças cruciais ocorridas nas últimas décadas, no território da Educação Básica, que trazem consigo a necessidade de repensarmos de forma profunda a estrutura de nossas instituições de ensino. Para isso, abordo imediatamente o que faz deste inicio de milênio um período tão singular: as simultâneas revoluções tecnológicas e o acesso massificado à informação. A seguir, analiso os efeitos desses fatores nas instituições de ensino.

Primeiro, torna-se importante pensar quem são os atores que compõe o cenário da Educação no Brasil, que papel exerce nos ditames desta educação quando os interesses nacionais são colocados e confrontados com o cenário internacional. O Brasil possui um lugar de destaque como componente do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), despontado já como a 6ª economia mundial, enfrentando o desafio de avançar internamente sob uma situação real que já dispõe de dados colocados por pesquisas relacionadas ao ensino e pesquisa como atividades que reconhecem na qualidade a necessidade de avançar com relevância significativa.

É provável o reconhecimento em torno do esforço de avançar pela reestruturação, expansão e consolidação dos Institutos de Ensino, das Universidades, das políticas de formação continuada para a Educação Básica, repensando salário, carreira e promoção docente, porém as reações práticas a esses avanços na realidade sócio-política dos ambientes educacionais têm demonstrado objetivamente que Educação não é a prioridade significativa para o país. Que futuro se pretende como identidade de Nação, um país que trata com descaso e atitude descompromissada a situação da sua Educação? “(...) Seremos no futuro um país miserável com uma economia caminhando para despontar na lista dos primeiros mundos, porém donos de uma nação listada por semi-analfabetos que afirma numericamente que avançou, criou possibilidades de aumento no número de vagas abertas para qualificar discentes através de números que não condizem com a realidade qualitativa de um forte compromisso com o futuro. Esse contexto resvala na questão de quem faz diretamente os procedimentos técnicos para se financiar e gerir as políticas públicas de Educação. (Manifesto dos Educadores da UNIVASF em prol de políticas de Educação de Qualidade, 2011).

 No geral o que se percebe publicamente é a ingerência de economista supervalorizando e quantificando dados, políticos definindo as metas de projeção e os educadores sendo deixados de lado quando o assunto é pensar valores para melhorar o cotidiano nas escolas através de políticas de inclusão e qualificação. Lacan enfatiza: “(...) Só é ensino verdadeiro aquele que consegue despertar uma insistência naqueles que escutam, este desejo de saber que só pode surgir quando eles próprios tomarem a medida da ignorância como tal – naquilo em que ela é, como tal, fecunda – e isto também vale para aquele que ensina”.  (1985. p.260). Portanto, falar de Educação é basicamente trabalhar com o conhecimento.

Vivemos uma época em que a produção do conhecimento tornou-se crucial para o desenvolvimento econômico e social. Conceitos como sociedade do conhecimento, economia do conhecimento, gestão do conhecimento e sociedade aprendente são amplamente utilizados para caracterizar a sociedade do século XXI como uma sociedade relativa à informação. Contudo, a educação nacional está em crise porque não se preocupa com as prioridades que servem para elevar a auto-estima e ampliar as aprendizagens a um patamar que dê formação e conhecimento suficiente a toda a população para enfrentar as dificuldades oriundas da inserção dos novos saberes em uma globalidade de acontecimentos que atende pelas novas tecnologias inserida no mundo real.

O homem necessita de informações para poder sobreviver num mundo gerenciado por tecnologias que a cada novo dia se renova, se aperfeiçoa. Então, como podemos formar homens para enfrentar esse novo padrão de vida? Desde a Revolução Industrial, na Inglaterra, que o ser humano passou a disputar com máquinas um lugar no mercado de trabalho. Estamos na chamada era da revolução tecnológica, onde a máquina se modernizou, foi aperfeiçoada e começa assumir o lugar de milhares de homens no mercado produtivo. Com isso, os conceitos de educação tiveram que mudar.

 Dilemas são enfrentados todos os dias no ambiente das salas de aula e, um dos mais complexos é o fato do educador muitas vezes não dominar uma prática discursiva coerente com seus anseios políticos, que lhe dê motivação para enfrentar problemas básicos como: pouca familiaridade com o ambiente escolar; falta de prática pedagógica e contato insuficiente com as diversas modalidades de ensino. O processo educativo só se transforma em prática consciente quando o educador reflete sobre suas concepções e é capaz de justificá-las para a comunidade em que está inserido.

Um dos grandes obstáculos para que se alcance esse objetivo é tornar claro para todos os educadores quais são os pressupostos epistemológicos em que se fundamentam suas crenças a respeito da educação. No entanto, há um perfil que vem sendo anunciado para o educador do futuro que atende pelas premissas do projeto de ressignificação e ampliação do papel do educador na educação básica. Essa discrepância entre o discurso e a prática demonstra que nem todas as ações operacionalizadas no ambiente escolar são frutos de uma posição política fundada em parâmetros críticos.

 É preciso superar essa prática comum que impera em muitas de nossas instituições de ensino. O fato é que muitas vezes o discurso oficial só cobra o compromisso de quem educa ou está na função de educador, fazendo dos paradigmas emergentes, que envolvem esses educadores, os maiores responsáveis pela não transformação do contexto real da sala de aula, porém é preciso atentar-se ao preceito que diz que quando um esquema cognitivo torna-se inadequado para dar sentido ao mundo, ele é substituído por outro.

Portanto o novo perfil pensado para o educador do milênio atende por alguns enunciados técnicos que perfazem a lógica cultural da Educação pelo educador. São eles: a) boa formação: buscar permanentemente a qualificação; b) uso das novas tecnologias: utilizá-las como recurso a favor dos conteúdos; c) utilizar-se das novas didáticas: buscando um jeito novo de ensinar cada disciplina; d) trabalhar em equipe e trocar ideias; e) planejar e avaliar sempre observando as reorientações do trabalho pedagógico); f) postura profissional: voltada para o protagonismo social. Esse é o paradigma do professor pesquisador que se atem as habilidades e competências e as colocam a serviço da lógica educativa como um elemento de profissionalização dos saberes no ofício docente. MARTINS; MOÇO (2010).

 Essa tendência lança as bases econômico-pedagógicas para uma renovação produtiva que não se atem a repeti as concepções analíticas e tecnicistas dos anos sessenta e oitenta, mas quer traçar outros cenários para a própria formação da Educação Básica. O estudo das competências fez de Philippe Perrenoud, o autor nessa área mais lido por parte dos indicadores nacionais. Para ele, a noção de competência se equipara a capacidade de utilizar saberes para agir em diversas situações, onde, desde nosso nascimento trazemos em alguns processos de maturação elementos que serão desenvolvidos em forma de aprendizagens ao longo das fases da vida, preparadas para adaptarem-se as diferentes situações que a própria vida os permitir.

Ainda na década de 1970, uma nova pedagogia tornou-se realidade no Brasil: A Educação Tecnicista. Essa nova tendência pedagógica tinha como objetivo formar os estudantes brasileiros para o trabalho nas indústrias e no comércio. Escolas Técnicas foram criadas, uma nova proposta pedagógica foi inserida e o antigo segundo grau foi dividido em estudos gerais, para formar estudantes que enfrentariam o vestibular e cursos profissionalizantes, a exemplo de técnico em contabilidade e agronomia, para aqueles que enfrentariam o mercado de trabalho. Essa tendência no Brasil, com o fim de regime militar, também foi extinta, pois o retorno da democracia e o avanço cada vez maior das tecnologias requeriam alunos preparados psicologicamente e didaticamente para viver em sociedade e para o mercado de trabalho, permitindo a participação efetiva em três esferas: o setor produtivo, a sociedade civil e os processos políticos.

Nisto, é importante lembrar que o discurso emancipatório da modernidade se baseia na apropriação conceitual de dois pilares: a) a vigência da sociedade do trabalho; b) a justificativa da existência do ser social como um sujeito consciente de sua individualidade, mas que não se priva do convívio em sociedade. Por isso este projeto de emancipação humana fracassou, por se concentrar apenas no processo técnico, tendo como resultado final a degradação social. As novas competências, lançadas pelos teóricos para enfrentarem a situação exposta, exige da sociedade do conhecimento, informação e constante aprimoramento.

 A partir de 1996, com a aprovação da Lei Nº 9.394/96 a Lei de Diretrizes da Educação Nacional, novas mudanças foram inseridas no contexto educacional brasileiro. E, precisamente, o que em nossos tempos se modificou foi a definição do nosso local no mundo, que na contemporaneidade não é mais a noção de que fisicamente pertencemos a um país, mas sim que o trabalho em torno do qual se processa a informação acessível a todos se modificou e tomou outros contornos dando uma nova cara as alteridades que compõe o cenário político do trabalho manual pelo intelectual. Essa é a melhor definição do capital cultural processando informação para definir o global pelo capital social.

Para que o cidadão possa assumir o papel de ator nesse novo patamar social, o desenvolvimento das competências se dá pela compreensão de valores sociais e morais oriundos da nossa socialização num mundo cada dia mais competitivo, perverso e extremamente estressante, envolto numa combinação política e cultural que nos leva a diferentes situações. O conhecimento, nesse mundo de informação, tornou-se importante para nosso crescimento, mas somente o conhecimento técnico não pode mudar nossas vidas. Precisamos moldar nossos conhecimentos com novas aprendizagens, nos preparando para enfrentarmos diferentes situações, sendo aluno e professor na escola da vida. Para tanto, é preciso formar professores para a docência que, conseqüentemente dê contornos distintos à identidade profissional e às práticas desafiadoras dos professores, ampliando o desenho dos projetos que desejam formar para si e para o mundo, através da Educação.

Primeiro, há um projeto a ser modificado que passa pela concepção de Homem que se quer permanentemente ser pensado e depois pelo projeto de Escola que forma para as aprendizagens significativas, quer seja, pela formação do pensamento intelectual ou das práticas discursivas, que o futuro educador processa já agora, se contrapondo a formação bancária do ensino na zona rural ou urbana. Através do profícuo entendimento da interação entre as fronteiras do discurso educacional, o educador passa a compreender as práticas discursivas que se alinham pelos saberes pedagógicos, pelos saberes políticos, pelos saberes culturais, pelos saberes transversais (interdisciplinares) que trazem relevância social a prática do educador quando ele faz de sua representação o elemento intelectual que promove novos agentes culturais para multiplicarem os processos de enfrentamento a cultura dominante.

Para tanto, é preciso pensar a prática docente como uma prática reflexiva que dê ao educador capacidade de perceber o seu ofício de professor com a percepção da profissionalização, dando-o como acesso ao status da profissão, a propriedade laboral, política e social. O próprio Perrenoud (2002) levanta essa questão e a amplia para focar a profissionalização como um dos elementos principais para se alcançar a razão pedagógica.

E para ampliar o referencial do contexto exposto, se faz necessário pensar nas questões que Henry Giroux problematizou para o lugar social do educador pelo trabalho intelectual através do esforço de compreensão da formação de opinião: Quais são as variantes morais segundo as quais construiremos a nós mesmos como agentes sociais de mudança? De que maneira podemos nos reposicionar enquanto educadores contra a cultura dominante a fim de reconstituir nossas próprias identidades e experiências e aquelas de nossos estudantes? Como podem os educadores construir um projeto pedagógico que legitime uma forma crítica de prática intelectual? (2002. p. 124).

Diante do exposto, é notório pensar no contexto educacional da sala de aula como um espaço múltiplo onde se aprende assuntos de relevância social capazes de criar novas perspectivas para os efeitos práticos da dominância cultural pela ideologia vigente. Por isso se faz importante perceber que com a evolução tecnológica e a popularização do computador, bem como da Internet, o ser humano passou a ter um novo espaço para buscar o conhecimento. Nesses espaços multiculturais conhecidos como ambientes virtuais de aprendizagem se aprende desde técnicas militares a operacionalidade de uma bolsa de valores. Aprendemos as leis da química e da física sem necessitarmos ir num laboratório. Com isso, a escola passou a ser coadjuvante no ato de educar, deixou de ser o cenário principal e o professor muitas vezes mal informado, sem vínculo com outros meios de comunicação, deixou de ser guardião do conhecimento, passando a condição de “parceiro” nesta incansável busca. Se a escola não mais é o cenário único de aprendizagem, então para que existe escola ainda? Porque não acabamos com as escolas e formamos em seu lugar centros de informática onde o aluno se conecta nas redes sociais, faz a leitura dos assuntos, faz exercícios e vai jogar bola?

A ideia não é ruim, nem nova. Autores muitos já escreveram sobre o assunto, porém não podemos esquecer que o objetivo da educação é formar o homem para a vida em sociedade e para o trabalho. Nisto a escola torna-se com seu projeto pedagógico, esse lugar socializador onde alunos, professores e comunidade, interagindo, produzem cidadãos preparados para a vida social, seja qual for a sua comunidade. Esse papel é tão importante quanto aprender ou ensinar a geografia física do Brasil.

Um dos maiores desafios da Educação nesse milênio é ensinar os alunos a apreender conteúdos, formar suas convicções e esboçar soluções, pois este será o dilema maior que enfrentarão fora dos muros da escola e da Universidade. Outro desafio preponderante que se coloca para melhorar o ensino quer seja na zona urbana quer seja na zona rural é pensar nas três principais perspectivas para se alcançar o ensino de qualidade: pensar no inchaço do currículo, pensar na profissionalização que atente ao status da profissão, pensar no domínio técnico.

Mas para termos uma escola no campo ou na zona urbana que ensine para a vida, é necessário que tenhamos professores reflexivos, que tenham conhecimento do seu papel social, que queiram redescobrir a cultura de cada um no seu lugar de origem. É preciso também ter uma educação de qualidade que torne seus profissionais reconhecidos e valorizados, senão teremos pessoas desiludidas ensinado a pessoas desacreditadas, vivendo um eterno mal-estar cotidiano. Este modelo de Educação muda a percepção de profissionalização do professor, dando a ele o acesso ao status da profissão. A pesquisadora Maria Alice Setubal afirma “a qualidade da Educação é proporcional à qualificação dos professores”. (2011. p. 34).

A própria Setubal denuncia a ingerência de muitos economistas no território político da Educação e aponta outro problema: “(...) na maioria dos casos, as análises ficam restritas aos números e não foca a sala de aula. Por isso, acho ser preciso colocar os educadores em pé de igualdade com os economistas. Não se trata de uma competição para definir quem sabe mais, nem mesmo de uma abordagem quantitativa versus outra qualitativa. A contribuição dos professores é o olhar que incide no pedagógico. (...) Uma mobilização para resgatar o valor simbólico da profissão. Hoje, as pessoas praticamente pedem desculpas ao dizer que lecionam. Precisamos aproveitar esse momento em que é crescente a percepção da sociedade sobre a relevância da Educação. (...) Não podemos esquecer o professor e o estudante. Não faz sentido só olhar para aspectos mais periféricos, como a gestão, e achar que tudo será resolvido”. (2011. p. 36).

Assim, o contexto das competências está relacionado ao “saber fazer” e a busca por novas metodologias e novas formas de ensinar ao resgatar os valores culturais de cada aluno, de cada comunidade.  Ao ensinamento voltado para a exemplificação e, sem dúvida a ânsia pelo novo, porque o educador precisa estar aberto diariamente para novas aprendizagens. Só assim poderá ser capaz de ensinar e aprender a se colocar dentro da efervescência virtual que tanto tem caracterizado essa nova época.

 Os Pilares da Educação para o novo milênio se mostram favoráveis ao contínuo aperfeiçoamento dos quatro eixos norteadores e fundamentais para a formação: aprender a fazer, ser, conviver e aprender a apreender para efetivar um ensino que venha sanar a dívida que o sistema educacional tem com nossas próprias incertezas históricas. (UNESCO, 2002. – In: Relatório “Educação, um tesouro a descobrir”).

A escola, os professores e os alunos devem, antes de tudo estarem sintonizados com a informação. Essa é uma exigência espontânea que se faz necessária nas instituições que tratam da moral social e, sobretudo da Educação. Os tempos estão cada vez mais agitados e a escola deve acompanhar, de forma salutar, essas transformações, revivendo e reestruturando novos e antigos conceitos/axiomas que dão possibilidade à vida em sociedade. O conceito de ética, moral, estado, religião, relações de trabalho, estão sendo desafiados e contestados pelos avanços genéticos, pelas inovações tecnológicas disfarçados em grandes blocos informativos que viajam em forma de arquivos através da internet. Essas são vertentes que tem modificado a natureza das relações entre as pessoas em todos os seguimentos institucionais e a escola deve “puxar” a reflexão sobre essas mutações e assim estabelecer uma educação reflexiva com alunos e professores reflexivos, afinal a formação dos sujeitos é o reflexo da sociedade onde ele está inserido.

Diante do exposto, percebe-se que os Desafios da Educação para o Século XXI, enfrentados pela escola no campo ou na zona urbana, em suas linhas mais gerais, deverá enfrentar as incertezas desses territórios sociais para trazer a realidade para dentro da sala de aula, dando outro sentido para o fazer intelectual pelo trabalho racional. 

Paulo Freire (2002) chama atenção para a necessidade de se pensar o papel da escola em uma sociedade em transformação, e diz que é preciso conhecer a realidade para oferecer o estudo dos conteúdos específicos historicamente constituídos, sócio-culturalmente compartilhados, buscando compreende-los para possibilitar ao aluno a compreensão do mundo em que vive através do processo de humanização que constitui o ser humano na sua plenitude, transformando sua vida e colocando os conhecimentos a serviço da construção de uma realidade melhor, mais justa, solidária e plena.

Freire também pensa no papel do professor como sujeito histórico de transformação e afirma ser necessário acreditar na possibilidade de mudança sendo de fundamental importância que este sujeito seja portador da esperança para assumir a condição de sujeito histórico de transformação da realidade escolar, articulado a realidade social mais ampla. Ser um sujeito transformador é estar em permanente construção para se tornar aprendiz e mediar a realidade enfrentada pelo aluno versus o conhecimento que se processa no amplo despertar pela busca do próprio conhecimento, favorecendo as aprendizagens do aluno rumo ao percurso de construção do ensinar para aprender e, principalmente, o educador tem que ser um eterno mediador.


Referências

ALARCÃO, Izabel. Escola Reflexiva e Nova Racionalidade. – Rio de Janeiro: GRAAL, 1985.

BRZEZINSKI, Iria. “Políticas Educacionais: Diretrizes Curriculares para Formação de Profissionais da Educação Básica”. In: ANAIS do 22º ENEPe. – Salvador, 2002. Discurso proferido na Mesa Redonda “Formação de Professores”.

DOLORS, Jacques. et al.Educação - um tesouro a descobrir: relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. - São Paulo: Cortez; Brasília/DF: MEC: UNESCO, 2002.

FARIAS, Enos André de. “Nosso papel para que tenhamos uma escola reflexiva”.  In: Diário da Região. – Juazeiro/BA, 2005. p.02.

FREIRE, Paulo. A Educação como Pratica da Liberdade. – Petrópolis: Vozes, 2002.

______ . Professores reflexivos em uma Escola Reflexiva. – Porto Alegre: ARTMED, 2002.

GIROUX, Henry A. Os Professores Como Intelectuais. – Porto Alegre: ARTMED, 2002.

______. Cruzando as Fronteiras do Discurso Educacional: novas políticas em educação. – Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.

LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

MARTINS, Ana Rita; MOÇO, Anderson. “O novo perfil do professor”. In: Revista Nova Escola - São Paulo: Outubro de 2010. p.47/53. Disponível em www.ne.org.br.

PERRENOUD, Philippe. A Prática Reflexiva no Ofício de Professor: Profissionalização e Razão Pedagógica. – Porto Alegre: Artmed, 2002.

SETUBAL, Maria Alice. “A qualidade da Educação é proporcional à qualificação dos professores”. In: Revista Nova Escola – São Paulo: Abril, 2011. p. 34/38. Nota de Entrevista.


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Santuário dos Templários


Aqui nestas plagas sonolentas, há de se ter vidas insones que verteram suas almas decaídas em batalhas nem sempre vitoriosas, mas os tempos de outrora trarão seus feitos inglórios pelas sinas do ermo em devaneio, e quando em suas súplicas vertidas, as batalhas pelo fervor das oblações fizeram de seus dias, nomes que entraram para a História como vultos de uma fé que passeia pela eternidade como transeuntes a clamarem pelo perdão de outras épocas.


Catedral de São Raimundo Nonato/PI - Gênesis Naum de Farias/
Óleo sobre Eucatex. Coleção Particular.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Mercador de Sal





Quando o tempo em carne
Nasceu na canção das infâncias,
O alforje das revoadas previu notícias
No afã das árabes primaveras.

Partiram-se noites, varreram-se tempestades
A morte repartiu-se por entre mundos
Em despidas e benções e adeuses
Nascendo na canção de outros mundos.

O sonho partido varou noites
Os medos esmagaram crenças
A solidão tragava as lonjuras
O cais paria a saudade...

O mar trazia notícias
Partindo a estação das cores
Deixando decaídas lagrimas
Na guerra dos revoltos corações.


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Memórias Dum Átomo






Aqui no mundo dos vivos, os olhos são a alma do tempo, que vêm tudo, deseja-se tudo, sabe-se de tudo; até mesmo das coisas que povoam o estro ─ como aquela musa de outrora, parida pelos sonhos: Era ela a própria encarnação, um céu copulando com os deuses num êxtase transbordante e cheio de volúpias necessárias. Quando sonhava, dava-se a pensar na vida feito um transeunte vadio que está perdido nos dias sem o rumo certo do reverso, querendo o afago jeitoso das coisas simples, entregue aos retoques mais elegantes. E ao fim, sua alma franciscana, amante de silêncios, jazia fria no pomar da inércia; sonhadora do seu tempo. Agora, quando sonhava, era a própria poesia refletida no papel como um folheto secreto, repleto de infinidades e singularidades.